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Sarah Mohn
Sarah Mohn

É jornalista graduada pela UFG e especialista em Comunicação Empresarial e Publicidade Estratégica. Nesta coluna, escreve artigos de opinião / sarahmohn@gmail.com

Meias Verdades

Vamos fazer um escândalo, sim!

| 03.11.15 - 18:23
 
Sarah Mohn
 
Goiânia – No fim da semana passada, véspera de feriadão, ouvi um colega de trabalho dizer que o assunto "Valentina do Master Chef" e o mais recente tema da prova do Enem (A persistência da violência contra a mulher na sociedade brasileira) já estavam "saturados". "Só gente chata que fica insistindo nisso", disse o colega.

Eu não discuti. Só olhei para o rapaz, pensei no quanto o debate sobre violência contra mulher incomoda a sociedade e concluí: que bom que incomoda!
 
Talvez meu colega de trabalho não tenha despejado sobre mim esse desabafo em tom maldoso. Talvez, ele seja só mais um cidadão envolto à maioria de brasileiros que, após sentir desconforto, tenta ignorar o "chato" debate e mudar de assunto.
 
Ignorar é mais fácil. Considerar como pontuais casos de mulheres agredidas é mais cômodo. 
 
O fato é que a intolerância do meu colega não é uma prática isolada. As pessoas sempre manifestam algum tipo de reação quando esse tema é levantado, mas de formas distintas: boa parte se omite do assunto, outra grande parcela classifica a discussão dentro do estereótipo de debate feminista e um pequenino grupo, mas existente, entra de cabeça na luta pela causa.

Obrigada, pessoas do pequeno grupo, por existirem.
 
A violência contra a mulher é uma prática tão comum que é (pasmem): situação diária. Por mais alarmante que pareça, toda mulher sofre cotidianamente algum tipo de assédio moral ou desrespeito de gênero.
 
Não estou exagerando e isso não é novidade. O problema é que nos acostumamos a ignorar e passar por cima do que vivenciamos com tamanha frequência.
 
Cantadas de desconhecidos na rua, piadinhas de colegas e amigos, assobios que nossos ouvidos já bloqueiam automaticamente, olhares escancarados de desejo para cima de nós em qualquer lugar e em qualquer ocasião. O livre desrespeito e a naturalidade com que a falta de limite é praticada existem e são rotineiros. 
 
É lamentável, mas a verdade é que nós, mulheres, aprendemos a evitar o confronto direto com agressores e carregamos sozinhas o peso da omissão diante de situações constrangedoras.
 
O desrespeito masculino é tão assustadoramente ignorado que nem costuma ser comentado entre amigas. Somente casos mais alarmantes ganham destaque nas nossas conversas. O fiu fiu de cada dia, esse não merece alarde. É tão presente que há muito deixou de ser novidade.
 
Não me orgulho de também manter uma postura omissa. E tenho certeza de que quase todas as mulheres que vivem neste país também não se orgulham. Mas em algum momento da vida fomos obrigadas a aceitar a imposição da nossa cultura machista e encararmos a possibilidade real de sermos violentadas em caso de enfrentamento em defesa de nossas integridades física e moral.
 
Sem amparo da legislação, que muito avançou com a promulgação da Lei Maria da Penha, mas que pode retroceder caso seja aprovado o PL 5069/2013, as mulheres desse país precisam continuar lutando insistentemente para que o tema nunca saia de voga.
 
Por exemplo, caso o Congresso Nacional aprove o tal PL 5069/2013, haverá alteração no que hoje se entende por violência à mulher. Para quem não sabe, só será considerado estupro o ato sexual que resultar em dano físico ou psicológico comprovado.

Outro absurdo será a proibição de aborto em caso de estupro. A vítima não poderá sequer tomar a pílula do dia seguinte. Segundo o PL 5069/2013, a equipe médica que realizar o aborto em caso de estupro poderá sofrer até três anos de detenção.

O PL 5069/2013 é tão chocante que desanima. Mas em tempos de Cunhas, Malafaias, Bolsonaros, Felicianos e Campos, não é de se espantar. Ele nos obriga a reagir e continuar a discussão sobre o tema "chato".
 
Num país em que abrimos mão de usar roupas curtas e decotes por medo de sermos atacadas verbal e fisicamente na rua, é essencial que o machismo seja ostensivamente combatido desde a educação básica.

É primordial que se torne tema de redação do Enem. É fundamental que apareça na novela das nove. É necessário que, diariamente, esteja em alguma pauta pública.
 
Não devemos abandonar o sonho de vivermos num país em que os homens respeitem as mulheres. Essa é uma realidade que existe em alguns lugares, como a Austrália. Lá, por incrível que pareça, as mulheres recebem tratamento mais igualitário frente aos homens.
 
A Austrália é tão linda em relação à questão de gênero que praticamente não há preconceito quanto o assunto é o vestuário feminino. Na terra dos cangurus, se as mulheres saírem à rua vestindo roupas curtas e transparentes, a maioria dos homens não é capaz de atacá-las.
 
Se na nossa cultura uma cena dessas chega a ser inconcebível, na cultura australiana prevalece o respeito. Lá os homens podem até achar bonito, ou feio, mas sabem que o direito de qualquer pessoa termina onde começa o de outra.
 
A sociedade brasileira precisa se desprender do conservadorismo, do machismo e da intolerância. Precisa evoluir. A maioria dos homens deve começar a aceitar o que é óbvio: mulher merece todo tipo de respeito.

Se for necessário sermos chatas para lutar por integridade, que tenhamos orgulho dessa condição. E não vergonha de gritar ao mundo as violências que sofremos.
 
Chega de fiu fiu, chega de assédios! E vamos todas aderir à campanha da Jout Jout: quando formos atacadas, vamos sempre fazer escândalo!

Comentários

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  • 20.11.2015 16:24 Raniel

    Onde vê "relacionamento conjugal", Leia-se: "relação sexual".

  • 20.11.2015 15:52 Raniel Nascimento

    Bom. A Nanda mandou muito bem. Mas vamos lá. Acrescentar só um dado com relação ao PL 5069. Uma dos objetivos do PL não é acabar com o fatídico assassinato de bebês (em que pese se tratar de estupro), mas sim, colher meios e indícios mínimos que apontem para um caso de estupro. Afinal, a Lei nº 12.845/13, apelidada de Lei Cavalo de Tróia, por justamente ABRIR DE VEZ AS PORTAS PARA O ABORTO NO PAÍS permite que, sem qualquer elemento ou indício mínimo de autoria e materialidade, a mulher seja submetida ao assassinato de bebês. Ou seja, basta que a mulher alegue que foi estuprada, sem que seja preciso qualquer prova, e o hospital, pela letra da Lei, é obrigado a fazer o aborto. Ora, convenhamos. Qualquer mulher que queira abortar (tendo relacionamento conjugal consentido ou não) pode ir a um hospital e dizer que foi estuprada, e pronto. Portanto, o objetivo do PL é corrigir falhas na Lei nº 12.845 e procurar meios investigativos, jurídicos, que apontem para a existência de elementos mínimos de autoria e materialidade para, então, caso a mulher queira, permita que se realize o aborto, que, querendo ou não, é uma pena de morte antecipada. Do ponto de vista do sofisma do discurso pró-aborto, encontramos disparidades engraçadas. As mesmas pessoas que levantam a bandeira do aborto, e em especial no caso do estupro, são as mesmas que são contrárias à pena de morte. A lógica deles é: pena de morte para o bebê que não tem nada a ver com o pato? Sim. Pena de morte para o animal estuprador? Não. Coitado.

  • 06.11.2015 15:21 Nanda

    Sugestão de leitura: http://www.cartadaliberdade.com.br/2015/11/revista-feminina-ou-feminista.html?m=1 Informe-se melhor sobre o PL antes de falar tanta besteira: O PL não é do Cunha. O original foi feito por 14 deputados, entre eles o Cunha, que assinou primeiro e é considerado o autor. O BO ajuda na identificação do criminoso, seu modus operandi e dá embasamento para a polícia agir, respaldada no banco de dados que é gerado. O corpo de delito ajuda na coleta de material genético do estuprador e também no tratamento da vítima, já que as lesões variam muito, desde pequenos ferimentos, dst´s e até perfuração de órgãos. Cada tipo de violência requer um tratamento específico. Impedir isso é corroborar com a impunidade do criminoso. Pelas mulheres e contra a cultura do estupro #AprovaPL5069.

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