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Sobre o Colunista

Carol  Piva
Carol Piva

Carol Piva é doutoranda em Arte e Cultura Visual na UFG e uma das editoras-fundadoras do jornal literário "O Equador das Coisas". Servidora do TRT de Goiás, tradutora e ficcionista. / carolbpiva@gmail.com

Carol Piva

Cris Alves: escrituras imaginais

| 02.02.16 - 08:34
“A expressão reta não sonha...
a imaginação transvê.”
(Manoel de Barros)


Goiânia - Quando, em 1897, Stéphane Mallarmé publicou o poema “Un coup de dés jamais n’abolira le hasard” [Um lance de dados jamais abolirá o acaso], confabulações, sobressaltos e controvérsias transbordaram o campo — já em fervilhamentos — da composição poética, atraindo a atenção de artistas, críticos, tradutores... leitores de poesia. Não era para menos: o francês saracoteava o universo artístico europeu, àquela altura já prenhe de seus-muitos “ismos” (expressionismo, cubismo, dadaísmo, et al.), irrompendo com a noção — nada ortodoxa — da iconicidade da escrita.
 
“Syntaxier exímio” que era, Mallarmé se pôs incansavelmente a explorar os elementos da página, a expansão total da letra, o verso em suas dobras e redobras, o movimento da palavra para além da rigidez do texto. Pois-bem sabemos: ao transformar o poema em “objeto [também] visual”, ele convida o leitor a gravitar em torno dos fluxos e refluxos do pensamento, das metamorfoses da palavra-viva, e o poema vai-se transformando, bem diante de nossos olhos, numa escrita composta de visibilidade(s).
 
Daí em diante, a relação [dinâmica] entre “os mundos do dizer e do ver”, como sugeriu Diderot, vem sendo ampliada. E a discussão sobre a permeabilidade das fronteiras entre o “legível” e o “visível”, repensada sob tantos-diversos ângulos, revelando e renovando sua contemporaneidade.
 
Quando, em terça-feira recente, recebi da poeta e artista visual goiana Cris Alves as suas “Escrituras Imaginais", num zás a imaginação-aqui também deu giros, algo-bachelariando, ousadias de devanear: “A gente tem mesmo destino de água que corre”, foi o que pensorresolutei. Impossível não ver nos versos dela, afinal, os encontros — nada casuais — da poesia com a imagem... em fluência admirável.  
 
Explorando a simbiose das relações entre o feminino e suas dinâmicas no universo do Fecundo, o movimento-ali, nas “Escrituras” de Cris Alves, é também de palavra plástica, que opera conexões e travessias, como diria Bernard Vouilloux, nos domínios do verbal e do visual.

 
É que também, de uma fluidez rio-aberto, a palavra fica sendo palavra orgânica, corpo sensível capaz de capturar imagens, percepções, memórias, dizendo da escrita bem mais do que a transposição de letras, senão mesmo um “fazer da mão”. E, na toada, em cadência quase de dança, numa constância de vontade e liberdade, o tom dos versos se sopra de sinestesias e tece materialidades que borbotam, na imaginação da gente, o per(curso)-poesia da artista:    
 
Único é o canto que me espelho
De todo canto
Cada momento que me envolto
Volto
Espero
Respiro
Encolho
Sinto cheiros
E sigo
 
É evidente que as contradições que saltitam da relação texto-imagem, que as inquietudes vindas do trânsito de ambas as linguagens — do poético ao visual — não estão ali, na escrita desta artista goiana, para serem “superadas”. Mas, especialmente, (in)traduzidas, exploradas, em processo de percepção, sensação e imersão.
 
E é quando conseguimos ver um outro elemento “encantável” nas “Escrituras” de Cris Alves: a consciência de um escrever poesia em diálogo com o corpóreo, em viagem, “correndo brotos / olhos...”, “sol nascendo de calor [que] chora”, “olhos metade sementes... espumando riachos”. Ou o que ela própria reconhece — de si e no Outro — como “atravessamentos entre escritas visuais e escritas corporais”.

 
São poéticas do visível, do sensível, do toque de tocar e estar... em querência de... poesias. “Cartas úmidas”, “acontecimentos do orgânico das coisas”, da vida de tudo quanto há para ser devaneado, percebido, atravessado de memórias que tangem, pulsantes... Verbos que transversam, sobrerrespiram, mesmo calados:
 
Percursos, memórias...
 
Sentidos cruzados, paralelos e transversais
Círculos e movimentos centrais
Tudo é passagem
O espaço transitório e constante
 
O vai-e-vem proposto pela poeta, entre texto e imagem, é plural: orquestrado para redemoinhar também pelas “derramâncias” de suas mulheres úmidas, vistas sob a ótica da fluidez, do devaneio, da imaginação.
 
Uma artista aqui-da gente... para ser lida sempre... Vida longa e orgânica às suas escrituras, grande poeta! Me entranho e saio dos seus versos em cadência de vivê-los rios-abertos, em curso, percursos, discursos-rio... 

Comentários

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  • 15.03.2016 18:27 Helena Frenzel

    Num mundo atulhado de tecnologia acho que precisamos sempre voltar ao simples e ao essencial vez em quando. Mas o "simples" não é lindo? Do que precisamos mais? Isso foi o que me soprou aqui nos ouvidos a combinação das gravuras e dos fragmentos dos poemas que você usou. Deu sede de beber mais dos versos desta poeta. Encantadores prosa, sabor-e-saberes. Amei!

  • 05.02.2016 10:01 Germano Xavier

    Esses dados-Mallarmé que dão o que falar, ainda hoje! Literatura para ler de cabeça para baixo e de cabeça para cima, de lado, juntando, fomentando, queimando, imaginando, cacos-dados de espaço-nós-que. Mais um texto lindo, menina-Equador. E um salve para Cris Alves!

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Carol Piva é doutoranda em Arte e Cultura Visual na UFG e uma das editoras-fundadoras do jornal literário "O Equador das Coisas". Servidora do TRT de Goiás, tradutora e ficcionista. / carolbpiva@gmail.com

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