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Sobre o Colunista

Carol  Piva
Carol Piva

Carol Piva é doutoranda em Arte e Cultura Visual na UFG e uma das editoras-fundadoras do jornal literário "O Equador das Coisas". Servidora do TRT de Goiás, tradutora e ficcionista. / carolbpiva@gmail.com

BRASIL CENTRAL, PATRIMÔNIO DA GENTE

Street Art aqui-já: 2ª Mostra de Arte Urbana no Brasil Central

| 10.02.16 - 09:27
A dois-bem-meus favoritos poetas, Lisa Alves e Sergio Luiz Blank
 
 
 
 “A cidade é um discurso”, dizia Roland Barthes. 
 
Um discurso, uma linguagem. Que pode contribuir ecoando apropriações e comunic(ações), tecendo mundos visíveis. Ou tão só dizer de um lugar-sem. Onde prédios crescem e se multiplicam sem nenhum critério. Com suas lógicas e não lógicas estéticas e éticas. Os seus afazeres, intermitências, buzinas, buracos de fechadura. Sem fim de métodos para que nos tornemos mais especialistas nisso, menos estreitos com aquilo. E, certamente, a todo instante, “conectados”. Mesmo nas nossas tantas invisibilidades...
 
Ver, ser visto. Estar na cidade com sentidos que enxergam também as frestas, o canto sem luz, desprovido de espetáculo; dinheiro do mês em parcimônia, para as despesas da casa, ou sobrando dessa vez para o dispositivo do século, o passeio merecido, o livro, o sonho, as tantas-ainda necessidades; aquela esquina cheia de gente andando, se correndo de obrigações, em atropelos; pessoas, objetos; ruas, viadutos, avenidas; mitos, emblemas, sinais. Travessias.
 
Olhar a cidade tentando negociar como as cidades invisíveis dentro da própria cidade podem ser vistas, transitadas, distribuídas melhor, apropriadas. Tanto Henri Lefebvre (em A produção do espaço) como Michel de Certeau (A invenção do cotidiano) voltam-se para as tessituras da realidade social quando pensam dessa forma o espaço da cidade. O primeiro pontua: “esse nosso espaço homogêneo [que] se fragmenta em migalhas”. O segundo enfoca: “a gigantesca massa [que] se imobiliza sob o olhar”.
 
É possível ver uma infinidade de... quando se embrenha na cidade. É possível. Ver. É preciso. 
 
Uma das impressionantes forças da chamada arte urbana (ou Street Art) resulta exatamente dessa importância, impulso premente, de tomar a cidade em tempo real, considerá-la o seu lugar de trabalho, de experimentações e atravessamentos artísticos. O seu lugar de agir, representar, de comunicar.
 

(Fernando Ferreira, artista-convidado da 2ª Mostra de Arte Urbana no Brasil Central)
 
Ali pela década de 1970 a seguir, quando os críticos concordam que ela teve seu boom como movimento artístico-cultural, metrópoles como Nova York começaram a abrigar intervenções urbanas — repetidamente: em muros, escadarias, orelhões, calcadas, ruas, becos, avenidas... — que fizeram, por exemplo, de Jean-Michel Basquiat e Keith Haring  artistas conhecidos internacionalmente. Pela forma como olhavam a cidade, transitavam por ela se apropriando de seus espaços. Fazendo arte. 
 
Adiante: dos anos 90 para cá, artistas como Banksy, Shepard Fairey e Swoon — conhecida ainda pelo ativismo de suas intervenções, instalações e performances — vêm aperfeiçoando estilos, ampliando os espaços de atuação, dando ao grafite (uma das formas de expressão da Street Art) e técnicas como a wheatpaste, os diferentes tipos de collage e outras formas de experimentação vasta notoriedade.
 
(Eduardo Aiog, artista carioca radicado em Goiânia, em foto também de Eudes Pina)

Quando pensada no universo da Cultura Visual contemporânea, a arte urbana não significa mais “clandestinidade”. Nem “vandalismo”, “insulto”, “depredação do espaço público”, como já foi — infelizmente! — concebida décadas atrás, pelo próprio caráter de contracultura que lhe foi inerente, desde o começo. Tampouco — felizmente! — faz mais sentido dizer “arte de rua” x “arte de galeria”, pretendendo-se, com isso, dicotomia tal-qual: “De um lado artista de rua; de outro, artista de verdade”. 
 
Desde os anos 80, digamos de passagem, o grafite está também nas galerias; pôde ser visto amplo, aliás, e bem-recentemente, na 3ª Bienal Internacional de Graffiti Fine Art (que aconteceu em São Paulo, finzinho de 2015). No fim das contas, lembra o crítico Martin Irvine, da Georgetown University: os artistas da Street Art se consideram sobretudo “artistas”. Que percebem a cidade como espaço de criatividades, intervenções e expressão. Apropriam-se do que está ali para ser compartilhado mesmo... coisa da gente, coisa pública. 
 
No Brasil, a arte urbana vem também dando bonitos saltos. Em larga escala, toca naquilo que é importante ser desvelado, discutido, visto. Não se trata simplesmente de protesto, alarde, panfleto. Mas de visualidade(s) a serem trazidas à mostra no contato diário com a cidade. Justo aquilo que pode estar... entre. E, tão-assim, além
 
Artistas como Eduardo Kobra (muralista de São Paulo) e Gustavo e Otávio Pandolfo (conhecidos como Os Gêmeos) têm já seus trabalhos bastante apreciados no Brasil e no exterior... e vêm fazendo história...
    
Thiago Tarm (do Rio de Janeiro), Marcelo Peralta (Goiânia), Pomb (Brasília), Shock (São Paulo) e Marcelo Ment (Rio de Janeiro) estão, igualmente, entre os melhores artistas da Street Art brasileira. Todos eles — além de inúmeros outros — já confirmaram presença na 2ª Mostra de Arte Urbana no Brasil Central, evento que, novamente, vem para abrir espaços, esticar horizontes e colocar a capital goiana entre aquelas que acolhem e prestigiam a Street Art no País.
 

(Cartaz-divulgação oficial da 2ª Mostra de Arte Urbana no Brasil Central)
 
Com o apoio institucional do Governo de Goiás, a Mostra acontecerá dessa vez na Vila Cultural Cora Coralina, importante espaço de arte-cultura do Estado, inaugurada em outubro de 2013. Contará, além da exposição de arte urbana propriamente, com instalações diversificadas, apresentações de rap, poemas, fotografia e performances — “literatura, poesia, música, grafite, teatro, circo e amor”.


Paredes, murais, quadros pintados com spray, estêncil e pincéis; instalações, esculturas e videoarte: em Goiânia, a Vila estará toda aberta até 31/03 para a celebração da arte urbana. A mostra, pela segunda vez, chamará a atenção por convidar o público a ver o extrapolar-da-tela-pintada, os artistas utilizando vários tipos de suportes, insistindo na arte de conversar... com a cidade. 
 
A três dias da abertura oficial: sim, será, de novo, como a gente espera, uma bonita chance para todo mundo ver, sentir, querer estar com e participar... de olhares e olhares e olhares... na e sobre o(s) espaço(s)... urbano(s), patrimônios da gente.
 
Vida longa à Mostra! 
Tim-Tim! 


Quando: de 13/02 a 31/03/16
 
Onde: Vila Cultural Cora Coralina
(Rua 03, esquina com a Av. Tocantins, Centro – Goiânia/GO – acesso pelas escadarias atrás do Teatro Goiânia)
 
Entrada gratuita
 




 


Comentários

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  • 12.02.2016 05:59 Helena Frenzel

    Isso, isso: artista é artista, tanto faz se expõe na rua ou na galeria.

  • 11.02.2016 17:45 Germano Xavier

    Um salve a todos que fazem Arte-assim pelo Brasil-mundo!

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Carol Piva é doutoranda em Arte e Cultura Visual na UFG e uma das editoras-fundadoras do jornal literário "O Equador das Coisas". Servidora do TRT de Goiás, tradutora e ficcionista. / carolbpiva@gmail.com

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