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Sobre o Colunista

Carol  Piva
Carol Piva

Carol Piva é doutoranda em Arte e Cultura Visual na UFG e uma das editoras-fundadoras do jornal literário "O Equador das Coisas". Servidora do TRT de Goiás, tradutora e ficcionista. / carolbpiva@gmail.com

Brasil Central, patrimônio da gente

O carro misantropo

| 27.03.16 - 16:58
Penso, em bastantes, que a gente deve pôr tino-além nos ditos e ouvidos para que, em vez de amiudados-dentro ou feitos desimportantes no exterior do dia a dia, eles nos transbordem de alguma esperança sem aquela mesquinhez de condescender tolices. Pelo menos.
 
Digo assim das palavras, isto sendo: que precisamos evitar a todo custo aquela-qual “gramatiquice” ou “ut(ens)ilidade-dicionário” que muitos ainda acham serem profícuas ou elegantosas, ou sabe-se lá o que mais. Quando há, na verdade, uma certa senhorita S. — por ora a chamaremos de Significância — pululando por detrás de todos os palavrescos com que a gente se faz sentir (no) mundo. Pois-ora: significar é gesto atravessador. Que convida a gente não para assentir em monólogos manufaturados, mas para manter conversação com as palavras, procurando discernimento, até representando, ficcionando, em descobrindo. 
 
E o de então é que: topei, eu mesma, dia desses, com uma palavra bem... atravessadora. Fui esbarrando nela, coisa engraçada. Que tive que compreender. Não se tratou assim de nenhuma boniteza, o tal acontecimento de descobrir. Eu só vinha andando pela cidade. Manhã dessas em que se acorda proparoxítono, cheirando à fumaça dos tais kits de sobrevivência. Gente maldizendo semáforos, falando ao telefone, escorregando dedos freneticamente, residuando esperas, mas esperando, entendendo, desentendendo, vivendo.
 
E, então, o episódio: atravessando o centro da cidade, o que eu via eram carros na iminência de atravessar as pessoas. “Qual o quê? Mas que sandice! — carro atravessar pessoa...” Pois, a certa altura, era o visto. Aquele desespero muito nosso, rotinas lancinantes, suor em ponta de faca, pés variando, um-e-depois-outro, andando. Como a gente quer ou consegue.
 
E os carros, ah, sempre eles! Com sua própria... misantropia. “E existe-lá isso, carro misantropo?” Hoje em dia? Ora se não! Têm muitos já até movidos a gás de cozinha. Que dizer dos que funcionam a óleo, água e ar? “Sim, atualmente se vê de tudo, né?” Portanto: carro não apenas pode ser misantropo, como a maioria é “já quase gente!”, imagine-se... Ainda não temos, porém, avanço tal para fazer com que eles sequer desejem aproximação amigável com gente-que-é-de-fato-gente. Daí serem bem misantropos ainda, os carros, que só pensam neles mesmos. No afinal: é carro misantropo aqui, aversivo que só ele; carro misantropo ali, mesmo quando quieto no seu canto fazendo doce.
 
Mas eu estava dizendo também disso: que a gente precisa conhecer as palavras, virar elas ponta-à-cabeça, para então dar escuta a canto invisível dos nossos sentidos e, parando nem-que por um momento que seja, entender uma ou outra palavra desentendida ainda. Não só por fora, mas também de dentro da gente. Ocasião até de presenciar o que amedronta o cotidiano dela, palavra. Era o que eu ia contando...
 
Atroador. Foi a palavra-pois, que eu nem-mesmo conhecia. Mas, afinal, foi como eu senti o último suspiro de vida indignificada-ali-daquela-mulher que, num zás, foi no encontro infeliz de um carro elegantíssimo. Não houve grito. Gemer — não, não gemia. O semblante com que ela caiu espatifada no asfalto quente daquela tarde foi, entretanto, atroador. E ela, sem tempo sequer de dizer nada. Estrondo vinha mesmo era do silêncio dela...
 
Porque ela não teve tempo nem-tão-muito de si mesma. Despencou desconsertada no chão. Sem compostura, resignada, e horrível mais que isso não poderia ter sido. Ela e os seus todos óleos com que cozinhar na vida, a água de lavar fogão, seu gás de cozinha provavelmente necessitando ser trocado — estirados ali, restos-dejetos, agora, no chão da cidade.
 
Na verdade, foi ele, foi o carro que foi no encontro dela. O pacotinho de pão francês que a mulher carregava numa cadência contentíssima — aquele pacotinho com o tal alimentício dela, era de se pensar — voou para longe. Assim como o fragilizado corpinho da dona. Era miúda a moça. Dessas que a gente nem sabe direito como vai parando de pé. Mas ela parava. Tanto que estava ali dando rumo decerto às avessas na vida, com ou sem história para contar.
 
Desceu do carro o dono dele. À imagem e semelhança da misantropia do próprio carro, era de estarrecer. Olhou para mulher, ali repuxada, sem reação, esfriando já no pelando do asfalto. O homem. Ou o carro. De quem a culpa? Principiou o rebuliço. Vinha gente de todo lado dando opinião, querendo ajudar, desajudar, ou tão só de conjeturas. Penso que a culpa foi primeiro do carro — um misantropo! E primeiro também do homem. Mas ele, na verdade os dois — porque, mesmo parecendo indissociáveis, eram ambos —, carro e homem juraram que a culpa tinha sido da mulher. E então esbravejaram — a culpa ficou sendo dela. 
 
Plateia? Tiveram, claro. Não houve, porém, sequer simulação de desespero. Perturbação? Foi parecendo que-assim: muitas pessoas compadeciam, mas... A mulher ali: estirada. Os transeuntes lá: curiosos. O carro-homem: preocupado com seus mil negócios atrasados por conta daquele impedimento, enquanto o corpinho já sem vida da mulher lançado longe dela. 
 
Com muito custo, esperaram — carro e homem — chegar a ambulância que levaria a tal mulher de gesto atroador para o hospital. “Com sorte, ela terá conserto ainda”. Misantropos — eles? Os carros, hoje em dia, pois-sim! Fato é que, no tentar sentir-além as palavras, acabei pensando foi que: atroador mesmo, até dando um desespero desesperado, doído-ali na gente só de ver tamanha... misantropia, atroador ficava sendo também o olhar sinistro do carro-homem. Para a mulher. E o que de tanto tráfego ela atrapalharia. No fim das contas, decidiram que, não havendo mais reparo, mandariam para despejo qualquer a mulher ali-já espatifada. Quando o condutor do corpo enfim chegou, o homem-carro foi logo dizendo:
 
— Ê mania besta essa de gente ainda insistir andar pela cidade... Só podia dar nisso!

Comentários

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  • 03.04.2016 13:20 Carol Piva

    Helena e Germano, ter vocês dois aqui, em-lendo-participando-dizendo comigo, nossa... é coisa das gigantes na minha vida. Pois-saibam. Vocês, que são dois queridos e, tanto além, leitores-editores-escritores que dão até alegria incomensurável na gente... Muito obrigada sempre e por sempre, psiu-tá? E sigamos, meus amores! Sigamos na luta contra os misantropos carros, eternamente!

  • 01.04.2016 17:36 Helena Frenzel

    "Estrondo vinha mesmo era do silêncio dela...". Do estrondo do silêncio de tantos que ainda ousam caminhar. Li este texto e fiquei pensando nas cidades de Llosa, nas cidades só dos homens, nas cidades sem deusas, cidades sem Deus? Cidades de carros misantropos e misantropos donos e donas de carro, gente que roda e roda e roda e no fim não sai do lugar. O futuro está em duas rodas, e em lugares de um cômodo só. Sigamos atravessando, signos, dicionários e sinais.

  • 27.03.2016 18:29 Germano Xavier

    Carro e Homem se unindo em desunião: cidade-tempos. Um lugar tomado pelo estranho objeto que avaria o natural. Homem-carro de ódios, carródios, mulher cambaleada estatelada no chão e a misantropia espetaculosa dos que por-perto rodam olhares. Uma reflexão carolínea sobre os hojes de nós-todos, na observância direta da luta dessa menina-nossa frente ao poder da palavra e dos significados para a vida. Salve, Carolina!

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Carol Piva é doutoranda em Arte e Cultura Visual na UFG e uma das editoras-fundadoras do jornal literário "O Equador das Coisas". Servidora do TRT de Goiás, tradutora e ficcionista. / carolbpiva@gmail.com

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