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Rodrigo  Hirose
Rodrigo Hirose

Jornalista com especialização em Comunicação e Multimídia / rodrigohirose@gmail.com

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Homens e máquinas: libertação ou escravidão?

| 19.07.16 - 14:30
“Criamos a época da velocidade, mas nos sentimos enclausurados dentro dela (...) Pensamos em demasia e sentimos bem pouco. Mais do que de máquinas, precisamos de humanidade”.
Chaplin
 
Em 1968, o diretor norte-americano Stanley Kubrick e o escritor britânico Arthur C. Clark apresentaram HAL 9000 ao mundo. O contexto era da corrida espacial e, lançado um ano antes da chegada à lua, 2001: Uma odisseia no espaço especulava, entre outras coisas, sobre a possibilidade de as máquinas superarem a inteligência humana. HAL 9000 concretizava nas telas um sentimento paradoxal: ao mesmo tempo em que busca se distanciar do Criador, o homem teme sucumbir diante de suas próprias criações.

Essa relação ambígua remete às origens. Na narrativa bíblica (Gênesis 4;22), o primeiro mestre do cobre e do ferro vinha de uma linhagem maldita: tetraneto de Adão, Taulbacaim era trineto de Caim, o primeiro homicida e fratricida, e filho de Lameque, o primeiro bígamo.
 
Na Ciência, a forja de ferramentas representa importante distinção do gênero Homo em relação aos demais hominídeos, porém, conforme Yuval Noab Harari ressalta no best-seller Sapiens: Uma breve história da humanidade, “a confecção de ferramentas é insignificante se não estiver associada com a capacidade de cooperar com muitas outras pessoas”. Essa capacidade cooperativa, portanto, é que distinguiu os sapiens dos neandertais, erectus e outros.
 
Em Fedro, Platão (427-347 a.C.) conta que o deus egípcio Thot, ao apresentar sua nova criação, a escrita, ao rei Tamuz, recebe tal advertência: “Uma coisa é criar as artes, outra é julgar em que medida trarão malefícios”. O receio era de que o registro escrito viesse a deteriorar a capacidade de memória e raciocínio – qualquer semelhança com as discussões atuais sobre os efeitos do Google na mente humana não são meras coincidências.
 
Um intrigante experimento do pioneiro da computação Gordon Bell explorou as possibilidades da terceirização da memória. Ininterruptamente, registrava com uma microcâmera cada passo de seu dia e fazia backups de tudo o que lia. Para o pesquisador, dessa forma o cérebro se libertaria da penosa tarefa de armazenar dados e seria possível evitar as armadilhas da memória humana, muitas vezes inventiva demais, ao ponto de ter como verdade o que não passa de fantasia. A experiência está registrada no livro O futuro da memória (2009/ Editora Campus).
 
Das savanas africanas ou do mundo caído bíblico até a sociedade em rede a relação homem-máquina se tornou mais simbiótica. Máquinas autônomas ocupam espaço no cotidiano de forma quase onipresente. Veículos que dispensam o motorista já são realidade e não tardará o dia em que a Carteira de Habilitação será peça de museu. Pequenas engenhocas levadas no bolso conhecem seus hábitos tal como o Deus onisciente conhece seu coração. Sabem o que você come, com quem fala, por onde anda, como estão as batidas de seu coração e as músicas que gosta. Substituem sua memória, lembram do aniversário dos amigos e parentes, alertam que chegou a hora de tomar o medicamento – e qual a dose certa.
 
Entusiastas acreditam que essa simbiose livrará o ser humano de tarefas árduas, como o trabalho manual, que ficaria sob responsabilidade das máquinas, liberando-o para atividades prazerosas, como a contemplação das artes. Outros enxergam nessa dependência tecnológica uma escravidão contemporânea – já que as fronteiras entre o ambiente de lazer e o de trabalho foram rompidas.
 
Não é o caso de defender o ludismo, movimento do século 18 que lutava contra a mecanização da indústria têxtil, mas é bom nunca esquecer das palavras de Chaplin: “Não sois máquinas! Homens é que sois!”

Comentários

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  • 19.07.2016 14:45 epaminondas

    Fico imaginando como o articulista escreveu este texto. Não deve ter sido usando um computador e um editor de textos. Muita máquina para exprimir tanta raiva delas. Deve ter usado papel e caneta. Ops, caneta não, ainda é uma ferramenta oriunda de uma manufatura, esta coisa que destrói a humanidade da humanidade. Deve ter picado a ponta do dedo e escrito com sangue. Desculpe, olha só eu entregando minha dependência à ferramentas, não pode ter usado sequer uma agulha. Deve ter mordido as pontas do dedo e escrito (talvez por isto o texto não seja tão longo). Nem deve ter usado o papel, também produto industrial. Deve ter escrito numa pedra. Com sangue. Imaginem a cena e digam o que lhes parece celebrar a dignidade humana: Usar um prosaico editor de texto ou escrever com sangue em tábuas de pedra?

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