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Sobre o Colunista

Sarah Mohn
Sarah Mohn

É jornalista graduada pela UFG e especialista em Comunicação Empresarial e Publicidade Estratégica. Nesta coluna, escreve artigos de opinião / sarahmohn@gmail.com

Meias Verdades

Bela, recatada e muda

| 10.01.17 - 10:30
 

Goiânia - Não causou tanto alvoroço a ordem de silêncio dada pelo presidente da República, Michel Temer, à primeira-dama, Marcela Temer. Ao contrário da polêmica que tomou conta da internet, no ano passado, quando a Revista Veja a definiu como “bela, recatada e do lar”, desta vez o novo burburinho envolvendo o nome da esposa do presidente parece ter sido solenemente ignorado pela opinião pública.
 
A mordaça de Temer veio uma semana após a Veja – novamente ela – estampar na capa da revista a imagem de Marcela como a “aposta” do governo federal para salvar a popularidade da gestão de seu marido. Antes que a primeira-dama se pronunciasse, o presidente decretou que ela nem abrisse a boca. Obediente, não deu nem um piu. Apenas sua assessoria de imprensa foi liberada a falar por ela.
 
Desde então, não vimos nenhum meme viralizado no WhatsApp, nenhum textão compartilhado no Facebook, nenhum colunista manifestando opinião contra ou a favor em um grande veículo de comunicação. Apenas notas estritamente noticiosas narrando a decisão do presidente peemedebista. E fim de assunto. Vamos para a próxima pauta.
 
Pera lá! Não vamos, não. Na semana em que o Brasil comemora a nova vinheta do Carnaval da Rede Globo, em que a Globeleza não aparece mais nua, é muita hipocrisia da nossa parte fingir não reconhecer a decisão retrógrada e machista de Temer.
 
Como jornalista e especialista na área, reconheço a importância do assessoramento de imprensa a figuras públicas, sejam políticas, empresariais ou artísticas. No entanto, é fundamental não confundir assessoramento com imposição de regras.
 
Marcela Temer precisa, sim, ser orientada por um assessor de imprensa. Mas deve, sobremaneira, manifestar a voz que tem. Especialmente no Brasil, país em que nossa luta ainda é diária pela quebra de estereótipos, por liberdade de expressão feminina, equiparação de salários no mercado de trabalho, enfim, pela valorização da mulher na sociedade.
 
Não é de hoje que o presidente Temer deixa clara a pouca importância que dá às questões femininas, haja vista a quase nula participação de mulheres no comando dos ministérios. Retrocedemos na participação política desse governo e, o pior, o assunto ficou por isso mesmo.
 
Desta vez, Michel Temer cometeu uma grave falha ao silenciar sua esposa, mas Marcela Temer errou consideravelmente ao aceitar abrir mão de sua representatividade feminina. Talvez ela ainda não tenha se dado conta do papel que ocupa em âmbito nacional. Então, precisa ouvir um recado: não é desse tipo de figura pública política que nós, brasileiras, precisamos.
 
Um país que já teve Ruth Cardoso e viu sua ousadia de criar importantes programas sociais, além de obras literárias e estudos acadêmicos reconhecidos internacionalmente, não pode se contentar com uma primeira-dama que desempenhe função meramente figurativa e que não aproveite o posto privilegiado a que foi alçada para deixar algum legado ao país.
 
Realmente, vivemos tempos sombrios. Pertencemos a uma sociedade tão intolerante e desigual, que nos obriga a ansiar por figuras representativas com coragem de defender nossos direitos e de ampliar nossas liberdades. De nada nos valerá primeiras-damas amordaçadas em palácios oficiais. Muito menos a História será condescendente com rostinhos angelicais inúteis ao povo.

Comentários

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  • 10.01.2017 14:48 Melissa

    Melhor do que ser primeira dama muda, controlada, comprada, manipulada é ser uma Presidente da República. enfrentar um bando de velho babão machista, ser odiada por muito e até hoje idolatrada por milhares. Que essa essa " barbie" de plástico e sem cérebro, continua muda pra sempre.

  • 10.01.2017 14:14 Celina Sousa

    Maravilha de texto, Sarah! Falou tudo...parabêns!

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É jornalista graduada pela UFG e especialista em Comunicação Empresarial e Publicidade Estratégica. Nesta coluna, escreve artigos de opinião / sarahmohn@gmail.com

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