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Declieux Crispim
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Declieux Crispim é jornalista, cinéfilo inveterado, apreciador de música de qualidade e tudo o que se relaciona à arte. / declieuxcrispim@hotmail.com

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O primeiro grande filme de William Friedkin

| 22.05.17 - 09:18 O primeiro grande filme de William Friedkin (Foto: divulgação)
Goiânia - William Friedkin, um dos diretores expoentes da Nova Hollywood, atingiu uma maturidade artística aportado por um domínio assombroso de técnicas cinematográficas e mise-en-scène irrepreensíveis, antes mesmo de nomes mais badalados como Martin Scorsese, Francis Ford Coppola ou Brian De Palma. Os Rapazes da Banda (1970), seu quarto longa-metragem, é uma adaptação de uma peça teatral escrita por Mart Crowley, extremamente, bem elaborada e confirma a grandeza do mestre antes de ser agraciado com o Oscar por Operação França (1971), numa época em que esta premiação ainda era digna. Mesmo inferior ao filme Laranja Mecânica (1971), de Stanley Kubrick, com o qual concorreu, o longa de Friedkin é uma obra-prima.
 
No início da película, é apresentado um pequeno grupo de amigos se divertindo em uma festa de aniversário, mas esta leve atmosfera logo será modificada e o drama, instaurado, por meio de uma construção surpreendente e arrojada para a época. A ruptura com a leveza aparente se faz a partir do momento de uma visita inesperada de um ex-colega de quarto da época da faculdade de um dos personagens. Um estranho no ninho, um heterossexual que se orgulha de sua condição, deflagrará uma série de eventos, como em Teorema (1968), um clássico de Pier Paolo Pasolini, que exprimirá sentimentos até então suprimidos.
 
A tensão desabrocha de modo acachapante à medida que as identidades e os sonhos são revelados em uma obra surgida em um período de uma fertilidade em ebulição raramente encontrada no cinema atual americano. É tecido um painel de sensações homoafetivas em um ambiente claustrofóbico através de diálogos viscerais, extremamente afiados, juntamente a uma encenação arrasadora que remete diretamente a obras como Quem Tem Medo de Virgínia Woolf? (1966) e Festim Diabólico (1948).
 
Os dramas vividos pelos personagens são transpostos aos espectadores e se intensificam à medida que a festa avança pela noite regada à bebida. Os amigos trocam farpas cada vez mais provocantes, originando uma escalada que confere uma tensão crescente avassaladora como uma ópera que prepara a plateia para o clímax final, de tal forma que é impossível ficar incólume às sensações inerentes a cada personagem, uma vez que os sentimentos emanam e irrompem de modo desconcertantes. Os poros são dilatados, presencia-se o suor escorrendo pela tez dos personagens e a amargura se estoura de vez numa belíssima sequência final em que é impossível não se colocar no lugar de cada personagem e sentir a própria dor à flor pele. William Friedkin é muito grande.

Comentários

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  • 23.05.2017 23:07 Yashmin

    A narrativa é tão instigante que preciso ver o filme hoje!!!

  • 23.05.2017 03:44 Marlon Giorgio

    Impecável texto, como de hábito. Conheci a peça no Rio como "Os Rapazes da Banda" mesmo, com atores locais e bem escolhidos. Friedkin realiza o que considero o seu melhor filme, neutralizando o possível ranço teatral na adaptação e enfatizando a comemoração neurótica de um aniversário entre amigos "alegres" e fantasiosos com o mal-estar da visita inesperada de um "estranho" ao grupo. Clima de emoções inusitadas e de dramática perplexidade com ótimo elenco.

  • 22.05.2017 11:55 Flávia Bosso

    Belíssimo texto, grande filme de fato, concordo, excelente como sempre!!!!

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