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Othaniel Alcântara
Othaniel Alcântara

Othaniel Alcântara é professor de Música da Universidade Federal de Goiás (UFG) e pesquisador integrado ao CESEM (Centro de Estudos de Sociologia e Estética Musical), vinculado à Universidade Nova de Lisboa. othaniel.alcantara@gmail.com / othaniel.alcantara@gmail.com

Música Clássica

Entrevista com o músico (e médico) Fernando Cupertino

| 25.02.21 - 14:38
Fernando Passos Cupertino de Barros é médico1 e músico - cantor e compositor. Além dos títulos de Mestre e Doutor na área de Medicina, Fernando Cupertino possui também o título de mestre em Música pela Escola de Música e Artes Cênicas (EMAC) da Universidade Federal de Goiás (UFG).
 
Conheço Fernando Cupertino há muito tempo. Nossa amizade surgiu quando, anos atrás, houve a indicação do meu nome para exercer a função de conselheiro estadual de cultura. Assim, Fernando Cupertino e eu, por algum tempo, fomos os representantes da área de Música naquele Conselho (CEC). 
 
O músico Fernando Cupertino (cantor [barítono] e compositor) é meu convidado, nesta coluna, para uma conversa sobre sua trajetória no campo musical, entre outros assuntos.

 

Fernando Cupertino - Cidade de Goiás (Foto: arquivo pessoal de Fernando Cupertino)
 
Othaniel Alcântara: O senhor nasceu na Cidade de Goiás (Vila Boa)? 
 
Fernando Cupertino: Na verdade, nasci em Goiânia, em 2 de março de 1959. Meus pais eram naturais da antiga Capital e lá moravam, mas minha mãe, com receio do primeiro parto, veio para Goiânia, onde um parente de meu pai, o Dr. José Fleury, um dos fundadores do Hospital Santa Helena, a assistiu no final da gravidez e no momento do parto. Com sete dias de nascido, voltamos para Goiás nas asas da Cruzeiro do Sul que, àquela época, tinha voos regulares entre Goiânia e Goiás. Meu avô materno era o representante da companhia lá, então não foi difícil arranjar tudo a fim de evitar uma longa e penosa viagem de carro por estrada de terra e, geralmente, em mau estado de conservação, sobretudo no período chuvoso.
 
Othaniel: Como se deu o encontro de Fernando Cupertino com a música? 

Fernando: Cresci dentro de uma família muito musical por parte de mãe. Minha tia-avó, Edméa de Camargo, era uma excelente pianista e havia sido diretora da Orquestra Ideal, nos tempos do cinema mudo, orquestra esta que continuou a existir mesmo depois. Foi também professora de Canto Orfeônico da antiga Escola Técnica, logo nos seus primórdios. Depois regressou a Goiás, onde pude conviver com ela na minha infância. Além disso, minha avó materna, Altair, também era uma excelente pianista. Em casa de meus avós sempre havia música: minha avó ou minha mãe ao piano; meu avô Luiz e meu tio Elder, ótimos barítonos e minha tia Eloah que, com uma bela voz de contralto, fazia par com minha mãe, soprano de voz muito bela. Além disso, recebi uma profunda influência da música sacra, pois a atividade musical nas festividades religiosas era muito marcante.
 

Edméa Camargo (1900-1972) aos 27 anos de idade (Foto: arquivo pessoal de Fernando Cupertino)


"Orquestra Ideal" em fevereiro de 1927 (ao fundo a tela do cinema) (Foto: arquivo pessoal de Fernando Cupertino)

Em pé: pianista Edméa Camargo ladeada pelos flautistas Armando Esteves (esq.) e Donizetti Martins de Araújo.
Sentados (da esq. para a dir.): João Ribeiro da Silva (bombardino), Antônio Valeriano da Conceição (clarineta),
Ovídio Martins (violino), Maria da Conceição Morais "Nazinha" (violino)
Júlio Alencastro Veiga (violino) e Athayde Paulo de Siqueira "Dico" (flauta).
Legenda disponível no livro A Modinha em Vila Boa de Goiás
Autora: Maria Augusta Calado de Saloma Rodrigues (p. 60).



Othaniel: E quando o senhor começou a estudar música?
 
Fernando: Quem me deu as primeiras noções de teoria musical e de técnica vocal foi a professora Darcília Amorim. Regente do Coro da Igreja de Nossa Senhora da Boa Morte, e mais tarde da Catedral de Sant'Ana, Dona Darcília era competentíssima! Além de ter uma belíssima voz, regia o coro, compunha e fazia arranjos. Suas irmãs, Laila e Dinah, tocavam harmônio e acompanhavam os cânticos na igreja. Assim comecei no caminho na música.

Anos mais tarde, já em Goiânia, ao mesmo tempo em que estudava Medicina, frequentei o Instituto de Artes da UFG [atual EMAC] como aluno não regular, graças à boa-vontade do maestro Oscarlino, excelente músico, que me introduziu na Harmonia e no Contraponto. Tempos depois, por sugestão de Dona Belkiss [Spencière Carneiro de Mendonça], tornei-me aluno de Composição do professor e compositor Osvaldo Lacerda, em São Paulo, com quem estudei de 2005 a 2011, quando ele faleceu.
 
Othaniel: Quanto tempo o senhor permaneceu morando na Cidade de Goiás?
 
Fernando: Morei em Goiás até 1970, quando nos mudamos para Goiânia. Em 1976, matriculei-me no curso de Medicina da UFG, depois de aprovado no concurso vestibular. Tornei-me um dos mais jovens alunos àquela época. Éramos apenas quatro alunos que tinham sido aprovados com 16 anos de idade. 
 
Othaniel: Como se deu a decisão de cursar Medicina?
 
Fernando: Desde a minha infância, fui atraído pela Música e pela Medicina. De um lado havia o fascínio pelo ambiente musical, tanto religioso quanto profano; de outro, a admiração pela figura de meu tio-avô, Dr. Tasso de Camargo, um médico-cientista que possuía um laboratório de análises clínicas para seu próprio uso na investigação do estado de saúde de seus pacientes. O convívio quotidiano com esse mundo fez-me escolher a Medicina sem, entretanto, renunciar à Música.
 
Othaniel: E como ficou a Música nesse período, ou seja, durante o Curso de Medicina?

Fernando: Quando estava no terceiro ano do curso, casei-me (1979) e, como morava no Setor Universitário, passava pelo Instituto de Artes [atual EMAC/UFG] a caminho do Hospital das Clínicas. Travei, então, conhecimento com o professor Oscarlino Rocha, antigo mestre da banda de música da Polícia Militar e que dava aulas no Instituto de Artes. Pedi para ser seu aluno e fui aceito como aluno não regular. Com ele permaneci por três anos, até o final do curso de Medicina. Depois de dois anos de residência médica, regressei para a Cidade de Goiás, já como médico. 
 
Mesmo durante o curso, nunca deixei de ir frequentemente a esta cidade [de Goiás] e de participar ativamente das atividades musicais. Após o meu regresso, intensifiquei essas atividades sucedendo Dona Darcília Amorim na direção do Coro da Catedral e acompanhando os cânticos ao harmônio. Ali permaneci até 1999, quando me mudei novamente para Goiânia com a família sem, contudo, cortar os laços com as atividades culturais que lá têm lugar.
 
Othaniel: Quando surgiu o interesse pela composição? 

Fernando: Ainda pré-adolescente, pedi a Dona Darcília que me instruísse sobre teoria musical. E ela o fez a partir da prática que tínhamos com o Coro da Catedral [na Cidade de Goiás]. Assim, escrevi minha primeira missa breve para coro misto e harmônio, por volta de 1974. Tive a felicidade de cantar em sua estreia tendo a profa. Maria Jubé no harmônio e a própria Dona Darcília regendo o coro. Nessa mesma época, escrevi um Salutaris, cantado por Maria Augusta Callado, num recital no Museu de Arte Sacra.
 
Othaniel: O senhor teve contato com a poetisa Cora Coralina na Cidade de Goiás?

Fernando: Ela era grande amiga de meus avós maternos. Éramos vizinhos, pois sua casa fica à esquerda e a nossa à direita, logo depois da ponte da Lapa. Ela escrevia à mão e eu fui um dos que datilografou muitos de seus poemas - na velha máquina Olivetti que ainda hoje se encontra na Casa de Cora [Museu] - a serem enviados a José Olympio Editores para publicação. Ela era austera e muito franca. Alguns a achavam ríspida demais, porém, pessoalmente, sempre nos demos muito bem e tínhamos boas conversas. Quando me formei em Medicina, ela me escreveu um belo cartão, vaticinando que eu me tornaria professor de Medicina, o que ocorreu anos mais tarde.
 
Othaniel: A Dona Belkiss Spencière saiu de Vila Boa muito jovem para estudar piano. O senhor chegou a ter algum tipo de convívio com ela quando ainda morava na Cidade de Goiás?
 
Fernando: Dona Belkiss era grande amiga da família de minha mãe. Dona Nhanhá do Couto havia sido professora de minha tia-avó Edméa de Camargo e elas se tornaram grandes amigas. Eu a conheci em Goiás, quando lá ia a passeio. Uma de suas visitas obrigatórias era em casa de tia Edméa e, assim, nos conhecemos. Outra pessoa muito querida e que lá ia com frequência era Dona Fifia (Maria Lucy Veiga Teixeira), que substituiu minha tia como professora de Canto Orfeônico da Escola Técnica Federal, em Goiânia. 


Belkiss Spencière, Nasr Chaul e Fernando Cupertino (Foto: arquivo pessoal de Fernando Cupertino)
 
Meu contato mais próximo com Dona Belkiss só ocorreu, de fato, em 2002, quando tomei coragem de ir até sua casa para mostrar-lhe algumas composições que havia feito para piano. Ela gostou do que viu e apresentou-me à professora Consuelo Quireze [EMAC/UFG], esta que se tornou a principal intérprete de minhas obras para piano.

Entre 2002 e 2005, eu a visitava todos os domingos. Discutíamos sobre tudo, eu ouvia o que ela estava estudando; por vezes levava alguma obra nova. Foi assim que ela me estimulou a gravar minhas peças, o que foi possível graças à Lei Goyazes que financiou a gravação de três CDs com obras minhas e que reuniram coro, orquestra e músicos destacados do universo musical goiano. Dona Belkiss interpretou algumas de minhas obras em um desses CDs.

Graças a ela, fui estudar Composição com o professor Osvaldo Lacerda, em São Paulo, em 2005. Ela telefonou pra ele e combinamos de ir juntos a São Paulo para um encontro, porém, o acidente vascular cerebral sofrido por ela na semana anterior à nossa viagem impediu que ela me acompanhasse.

 


Fernando Cupertino e Consuelo Quireze (Foto: arquivo pessoal de Fernando Cupertino)
 
Othaniel: Qual é o número total de peças que o senhor escreveu até o momento? Quais os gêneros musicais mais contemplados em seu catálogo de obras?
 
Fernando: Boa pergunta (kkkk). Do número total, não faço ideia. Porém, tenho um volume expressivo de música sacra (missas, motetos, ave-marias) e canções de câmara. Lembro-me de que missas são mais de quinze, para várias formações (coro e órgão; coro e orquestra de cordas; coro e orquestra sinfônica; coro e instrumentos de sopro); Improvisos para piano solo já estão no número 8; Momentos, que já são em número de 9; uma Toccatta; suites para piano; suites para piano a quatro mãos; peças para diferentes formações de câmara; canções de câmara; uma suite sinfônica; uma sinfonieta; obras sinfônicas para coro e orquestra; peças para coro misto a cappella e com acompanhamento de órgão ou piano e peças para instrumentos solo (flauta, fagote etc.). Há um pouco de tudo, uma gama variada de gêneros e de obras para diferentes formações. A única coisa que nunca escrevi foram peças para violão e ópera (kkk).
 
Othaniel: Como mencionado em respostas anteriores, o senhor estudou com o prestigiado compositor paulista Osvaldo Lacerda (1927-2011), entre os anos de 2005 e 2011. Como foi essa experiência?
 
Fernando: Foi algo extremamente prazeroso e enriquecedor para mim! O professor Lacerda era de uma vastíssima cultura e conhecia muito sobre o Brasil, não apenas sob o ponto de vista musical. Mais que aluno e professor, nós nos tornamos grandes amigos e, às vezes, nos desafiávamos mutuamente para cumprir certas tarefas. Eu me lembro, por exemplo, de que comentara com ele que eu sou apreciador da poesia de Alphonsus de Guimaraens e, daí, escrevemos cada qual uma canção com o texto do poema Ismália. Ele dedicou a mim essa canção, tendo sido uma das últimas que escreveu. Com Lacerda aprendi a escrever canções de câmara, com o devido cuidado de se evitar a concorrência entre a voz e o acompanhamento e de se colocar o texto em evidência. Ele dizia, com acerto, que canção era "poesia cantada" e, assim, devia ser composta e interpretada. Como decorrência desses seis anos de convivência, ganhei também a amizade da pianista Eudóxia de Barros, sua mulher, com quem colaboro como vice-presidente do Centro de Música Brasileira, hoje presidido por ela, depois que o professor faleceu.
 


Fernando Cupertino e Osvaldo Lacerda (Foto: arquivo pessoal de Fernando Cupertino)

Othaniel: Durante o tempo de convivência com o compositor Osvaldo Lacerda, o senhor cursou Mestrado em Música na UFG (2007-2009). Deve ter sido muito difícil conciliar os estudos musicais com as diversas atividades desenvolvidas na área da Saúde. Como foi enfrentar esse desafio?
 
Fernando: Ele [Osvaldo Lacerda] era contra eu fazer o mestrado. "Você quer isso para quê?", dizia ele. Mas eu sentia necessidade de uma formação de estrutura mais acadêmica. Tive a sorte de encontrar um orientador extraordinário, o Professor Ângelo Dias e pude estudar as canções de Osvaldo Lacerda com textos de Manuel Bandeira. Assim, pude entrevistar o professor Lacerda e discutir com ele todas as dez canções escritas para voz e piano, com poemas do seu poeta predileto. Ao final, ele gostou do que viu como resultado.
 
Othaniel: Para o senhor, de modo geral, as obras de compositores goianos são prestigiadas nas programações das orquestras (Sinfônica e Filarmônica) locais?
 
Fernando: Percebo que nossas orquestras e intérpretes têm procurado, sempre que possível, inserir obras de compositores goianos nos programas. Penso que a Filarmônica, ainda não muito, mas a Orquestra Jovem e a Sinfônica de Goiânia com bastante frequência. De resto, as obras de autores nacionais não têm ainda o espaço que imagino que merecem nos programas de concerto, mas isso é um caminho que precisa ser insistentemente buscado.
 
Othaniel: Finalizando nossa entrevista, neste mês de fevereiro o senhor passou a integrar o Instituto Cultural e Educacional Bernardo Élis para os Povos do Cerrado (ICEBE), como membro titular. O senhor vai ocupar a Cadeira 62, cujo patrono é o professor Ático Villas-Boas. O que significa pertencer a essa agremiação?
 
Fernando: Fiquei muito honrado em receber o convite para participar de uma entidade cultural de destacada atuação, como é o ICEBE. Tenho ali amigos de longa data, como você, que prestam uma inestimável contribuição à cultura goiana, em suas diversas áreas. 
 
Tive, também, uma emoção imensa ao ocupar a cadeira cujo patrono é o meu inesquecível amigo e professor Ático Frota Villas-Boas da Mota, folclorista e poliglota baiano que, por muitos anos, lecionou na UFG. Naquela instituição, fui seu aluno no então Instituto de Artes, na década de 1970, na disciplina “Folclore Íbero-americano” e, também, seu orientando durante dois anos, num trabalho de pesquisa sobre a Semana Santa vilaboense, como bolsista da UFG. Além disso, juntamente com mais três colegas, trabalhamos durante alguns anos, voluntariamente, auxiliando-o na catalogação de sua imensa biblioteca. Tive, ainda, a felicidade de conhecer sua cidade natal, Macaúbas, no sertão da Bahia, em companhia do Dr. Hecival Alves de Castro, por ocasião de um festival cultural. Por tudo isso, meu ingresso no ICEBE reveste-se de um significado muito especial.
 
Othaniel: Obrigado pela entrevista!
 
Entrevista realizada nos dias 08, 09, 10 e 23 de fevereiro de 2021 (via e-mail).
 
 
NOTA:
* Dr. Fernando Cupertino fez o Curso de Medicina na Universidade Federal de Goiás (UFG), nos anos 1970. Depois, cursou Mestrado e Doutorado, respectivamente, na Universidade Federal da Bahia (UFBA) e na Universidade de Brasília. Na qualidade de médico, representou Goiás em diversos e importantes instituições brasileiras e do exterior (CNS, CONASS, IHMT [Portugal] etc.). No final dos anos 1990, foi Secretário de Estado da Saúde de Goiás. Também é professor da cadeira de Saúde Coletiva da Faculdade de Medicina da UFG. 
 

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Othaniel Alcântara é professor de Música da Universidade Federal de Goiás (UFG) e pesquisador integrado ao CESEM (Centro de Estudos de Sociologia e Estética Musical), vinculado à Universidade Nova de Lisboa. othaniel.alcantara@gmail.com / othaniel.alcantara@gmail.com

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