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Fabrícia  Hamu
Fabrícia Hamu

Jornalista formada pela UFG e mestre em Relações Internacionais pela Université de Liège (Bélgica) / fabriciahamu@hotmail.com

Inspiração

Retrato em preto e branco

| 12.06.13 - 14:40

                                                                                                                                             (Foto: Angelo Merendino)

- Senta aqui, deixa eu te mostrar uma coisa interessante.

- O que é?

- Um cara que fotografou a mulher dele com câncer de mama, desde quando ela descobriu a doença até o dia em que morreu.

Vejo as fotos que o amigo publicitário me mostra e me levanto, apressada.

- Não gostei. Achei invasivo, excessivo... Parece um Big Brother da doença dela.

- Olha direito que você vai perceber que não é bem assim...

Não olhei. Saí de perto e esqueci o assunto. Até que uma amiga compartilhou uma crônica  do articulista da Folha de S. Paulo, Antônio Prata, no Facebook. No texto, ele conta a história de um taxista inconsolável, não apenas pela perda da esposa, mas, principalmente, por não ter uma foto dela como ela era no cotidiano.

“Tenho foto, sim, eu até fiz um álbum, mas não tem foto dela fazendo as coisas dela, entendeu? Que nem: tem ela no casamento da nossa mais velha, toda arrumada. Mas ela não era daquele jeito, com penteado, com vestido. Sabe o jeito que eu mais lembro dela? De avental. Só que toda vez que tinha almoço lá em casa, festa e alguém aparecia com uma câmera na cozinha, ela tirava correndo o avental, ia arrumar o cabelo, até ficar de um jeito que não era ela”, lamentava-se o taxista. “Não faz sentido, pra que a pessoa quer gravar as coisas que não são da vida dela e as coisas que são, não?”, questionava o homem.

Então era isso. Era uma saudade da vida como ela é, do outro como ele sempre foi, e não do que imaginamos que seria, do que gostaríamos que fosse. Corro e sento em frente ao computador, para ver novamente o site do tal fotógrafo que acompanhou a saga da mulher com câncer.

Intitulado “A batalha que não escolhemos – A luta da minha mulher contra o câncer de mama”, o site do fotógrafo Angelo Merendino, que vive em Nova York, traz 38 imagens, que retratam a passagem da esposa, Jennifer, por sua vida. São fotos de amor, dor, solidão, alegria, esperança, amizade, vida e morte.

Angelo e Jennifer se apaixonaram de forma fulminante. Seis meses depois do primeiro encontro, ele a pediu em casamento. Cinco meses depois de casados, ela descobriu que tinha câncer de mama. Lutou contra a doença durante quatro anos, mas não resistiu. Durante todo este tempo, Angelo esteve ao seu lado.

Depois de olhar com cuidado, concluo: não, o tal site não era o Big Brother da doença de Jennifer. Era, sim, uma tentativa amorosa e desesperada de Angelo enxergar o mundo pelos olhos da mulher, de dividir com ela a angústia do tratamento, de tornar o fardo do câncer um pouco mais leve, de buscar um sinal de humanidade no que parecia ser apenas um eterno sofrimento hospitalar.

Vejo Jennifer e Angelo felizes, no começo do namoro, tomando cerveja. Vejo-a sozinha na praia, olhando para o mar. Vejo suas mãos com um punhado de fios de cabelo. Vejo Angelo raspando sua cabeça no hospital. Vejo-a chamando um táxi.

As fotos mostram Jennifer se maquiando, fazendo as unhas, nadando na praia... Vejo-a encolhida na cama, cobrindo o rosto; espremendo os olhos de dor, na cama do hospital; recebendo o olhar comovido e sofrido do pai; deitada nos ombros acolhedores da mãe; cercada pelo carinho das amigas.

Vejo Jennifer deitada numa cama, na sala de casa. Vejo a mesma cama vazia. Vejo o carro que conduz seu cortejo fúnebre. Vejo seu túmulo. Por trás de tudo isso, enxergo o amor de Angelo. O amor que assistiu a tudo isso e não quis apagar nenhum detalhe, que conseguiu abraçar com a mesma intensidade alegrias e tristezas.

Em tempos de Instagram e Photoshop, o tributo de Angelo a Jennifer é a lembrança de que no amor de verdade não cabe edição. Só se ama realmente por inteiro. Não há como cortar aquele momento doloroso, tornar mais suaves as cores daquela decepção, carregar nas tintas daquela surpresa boa, apagar as marcas deixadas por brigas, tristezas e desencontros.

O amor não é uma foto digital colorida, em HD, com um casal sorridente, se abraçando, sem defeitos, como nos comerciais de TV. É um retrato impresso, em preto e branco, carcomido nas pontas, um pouco amassado, com duas pessoas que deram as mãos na rua, num dia chuvoso, e ficaram sem jeito ao serem flagradas.

Quando estava no hospital, Jennifer disse a Angelo: “Você tem que olhar nos meus olhos, essa é a única maneira com a qual posso lidar com essa dor”. O amor é a foto do instante em que ele olhou para ela. Penso nisso enquanto ouço Pictures of you, do The Cure. “Eu estive olhando por tanto tempo essas fotos suas, que eu quase acredito que elas são reais (...)”. Sim, muitas vezes elas são reais.

Comentários

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  • 18.07.2013 21:08 Lia Jung

    queremos mais!

  • 11.07.2013 13:44 Jeanne

    Fabrícia, me emocionei com a forma que escreveu isso. Você é muito boa. Me prende, me faz ler até o final! Parabéns pelo dom que tens com as palavras!

  • 27.06.2013 12:26 Camila

    Já havia visto as fotos e me emocionado. Seu texto teve em mim o mesmo efeito que as imagens. Parabéns!

  • 17.06.2013 17:45 Ana Carolina Fonseca Soares

    Não é o primeiro texto seu que me emociona. Lindíssimo!

  • 17.06.2013 11:44 Cejana Di Guimarães

    Lindo texto, mais uma vez, Fabrícia! Poucos falam do amor com tanta delicadeza e profundidade como você. Grande abraço

  • 12.06.2013 17:29 silvana monteiro

    Belíssimo texto. Um presente para os leitores nos dias dos namorados. Afinal, não é fácil falar de amor de uma forma tão delicada e profunda sem cair no lugar comum.

  • 12.06.2013 15:22 Adrianne Garcia Vitoreli Bassi

    “Você tem que olhar nos meus olhos, essa é a única maneira com a qual posso lidar com essa dor”. Simplesmente lindo. Parabéns, Fabrícia, pela delicadeza e sensibilidade!!

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