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"Novo normal"

Setores produtivos se preparam para cenários de mudança pós-pandemia

Especialistas analisam perspectivas do futuro | 07.06.20 - 08:00 Setores produtivos se preparam para cenários de mudança pós-pandemia Foto: Divulgação

Carolina Pessoni
 
Goiânia – A pandemia de covid-19 trouxe mudanças de hábitos e incorporação de novas maneiras de agir nunca antes pensadas. De uma hora para a outra, as pessoas precisaram ficar em casa para se proteger de um vírus pouco conhecido e muito ameaçador e, para continuar com o cotidiano, tudo mudou. 
 
As máscaras, luvas e álcool em gel passaram a ser itens obrigatórios e de primeira necessidade. Em outra perspectiva, o home office ganhou mais força e foi inserido amplamente em diversos setores, assim como o ensino a distância e até mesmo a telemedicina se tornaram comuns no nosso dia a dia.
 
Diante de todas essas mudanças vem o questionamento: como será a vida pós-pandemia? O que vivenciamos agora se tornará comum? Surgiu então a expressão “novo normal”, com o objetivo de designar as novas práticas que serão e já estão sendo incorporadas em nossas vidas. 


(Foto: Vinícius de Melo / Agência Brasília)

Mestre em Filosofia pela Universidade de São Paulo (USP) e membro do Laboratório de Teoria Social, Filosofia e Psicanálise do Centro-Oeste, Rafael Gargano explica que a expressão "novo normal" pretende, de alguma forma, definir e dizer também o que não é normal e, portanto, determinar posições que não se comunicam mais.
 
"O 'novo normal' é uma tentativa de definir quais serão as condutas e os modos de vida aceitavéis e toleráveis daqui por diante. Ela tende a tornar natural e corriqueira situações de vida criadas a partir da pandemia e, também, situações de vida criadas a partir de um conjunto de práticas políticas, sociais e econômicas", explica o filósofo.
 
Gargano ressalta ainda que a tentativa de determinar o que é o "normal" serve, em grande medida, para nos situarmos e nos localizarmos diante de questões que não compreendemos ou temos dificuldade para processar. "Ela nos fornece um ponto de ancoragem. Ela baliza e nos orienta na percepção do mundo. Ela nos permite definir o que é e o que não é. Ela impõe limites. Mas, ela cria uma ilusão, ela cria a ilusão da boa forma, a ilusão da harmonia. Ficamos seguros quando nos encaixamos dentro dos limites da normalidade", explica. 
 
Para entendermos um pouco das perspectivas do futuro, o jornal A Redação entrevistou especialistas dos setores de pequenas empresas, mercado de trabalho, gastronomia e lazer, ensino e comunicação.
 
Nova realidade para negócios
“Estávamos caminhando para valorizar apenas as ciências exatas, agora precisamos voltar a ser mais humanos”, é o que analisa o diretor técnico do Sebrae Goiás, Wanderson Portugal Lemos (foto). Para ele a pandemia impôs mudanças e atualizações que obrigaram os pequenos empresários a rever seus modelos e hábitos de negócio e se adaptar às novas condições do mercado.
 
Serviços de delivery, drive-thru, além do comércio on-line e home office passaram de tendência para realidade. “É um momento para repensarmos a vida e nossas empresas. Temos que valorizar novas formas de gestão, nos preocupar e investir mais em tecnologia, porque o digital está com tudo. Costumamos falar que o futuro chegou antes da hora e o que demoraríamos talvez 15 anos para implantar tivemos que fazer em 15 dias”, ressalta o diretor.
 
Wanderson explica ainda que as empresas que já estavam se preparando para essa transição tiveram algumas facilidades, mas que o momento é propício para que todas revejam seus modelos e façam atualizações e adaptações. “O futuro vai nos ensinar, mas já sabemos que nada mais será como antes. A pandemia trouxe o ensinamento de que sozinhos somos fracos, então precisamos nos unir para repensar hábitos e costumes com o objetivo de que todos possam sair fortalecidos”, destaca.
 
O Sebrae, explica o diretor, está preparado para atender os micro e pequenos empresários, com orientações para a nova realidade, prestação de serviço, destacando as melhores práticas para abrir e manter as empresas com biossegurança para colaboradores e clientes. 
 
A perspectiva, entretanto, é que o mercado traga novas oportunidades de empreender. “Tudo ainda é muito incerto e inseguro, mas com muitas oportunidades de mudanças. Quem realmente for empreendedor vai ter muitas oportunidades de novos negócios”, afirma Wanderson.
 
Trabalho on-line
Com essa mudança de cenário causada pela pandemia, as pessoas passaram a desenvolver seus trabalhos em casa com o uso da tecnologia. As empresas descobriram novas formas de trabalhar, utilizando estratégias que também auxiliaram a eliminar custos. “As pessoas foram obrigadas a trabalhar em home office, até mesmo quem tinha grande resistência com relação a isso teve que se adaptar”, é o que analisa o gestor de imagem Alexandre Lozi (foto).
 
Para Alexandre, o home office veio para ficar em algumas áreas, como trabalhos administrativos e de venda interna. “Muitas empresas que já voltaram com suas atividades optaram por permanecer com os profissionais trabalhando em casa. Isso gera menos padrões presos em regras trabalhistas, como cumprimento de horário e ponto, e mais ligados à produtividade e resultados”, ressalta.
 
O gestor de imagem destaca que é preciso que o profissional tome alguns cuidados e esteja preparado para o trabalho on-line e menos presencial. Ele explica que no home office as pessoas tendem a relaxar e misturar os hábitos rotineiros da casa com seus hábitos de trabalho. A orientação é criar horário e rotina, como se estivesse fora de casa, no ambiente formal de trabalho. “O ideal é ter um ambiente reservado, preparado para o uso da tecnologia, onde não haja barulhos externos e interrupções, como dos filhos ou animais de estimação, além de uma boa rede de internet e uma boa iluminação, já que muitas reuniões são feitas por meio de vídeo.” 
 
Outra dica do gestor é o cuidado com a imagem. Alexandre explica que os profissionais devem se lembrar que estão em horário de trabalho e se vestir adequadamente, como se estivesse saindo de casa para o ambiente formal da empresa. “Muitas reuniões são feitas em videoconferências, então é preciso estar atento à postura e ao visual para que isso não deponha contra sua imagem. Em um ambiente mais descontraído, como o on-line, a tendência é relaxar e alguns fatores podem prejudicar tanto o corpo físico quanto a imagem do profissional”, explica. 
 
Educação reinventada
Uma das áreas mais afetadas e que tem passado por mudanças profundas é a educação. O ensino a distância se tornou uma realidade e obrigou alunos, pais e professores a se reinventarem para utilizar a tecnologia a seu favor. A diretora executiva da Inteligência Educacional, Millena Araújo, explica que com a pandemia foi perceptível um avanço mais rápido na integração de ferramentas on-line que já deveriam estar presentes na educação ou estavam de forma tímida.  


(Foto: divulgação)
 
“Outra transformação importante foi a integração necessária das famílias como intermediadoras no processo educacional. Antes a família era convidada a conhecer o que as escolas estavam fazendo, hoje elas são necessárias para que os alunos tenham acesso à educação. É certo que, enquanto educadores, sempre buscamos o apoio contínuo das famílias e no cenário atual elas são peças fundamentais, mas é preciso estar ciente que não estão preparadas para conduzir o ensino dos filhos, pois não são professores. Espero que essa transformação seja perene. A família precisa estar mais presente e conhecer, de fato, o que ocorre na sala de aula dos seus filhos”, diz Milena.

Para ela, a educação se move para que os alunos se tornem cada vez mais autônomos, protagonistas do seu aprendizado. Torná-los mais participativos permitirá que as transformações sejam cada vez mais positivas. “A integração efetiva de ferramentas tecnológicas em prol da educação vai se manter quando a pandemia passar. Infelizmente existe uma grande desigualdade no acesso à internet, mas o ponto positivo é que essa será uma grande pauta para mudarmos a realidade do país. Precisamos nos unir para que o acesso às novas tecnologias sejam um avanço que poderá beneficiar todos, e nunca excluir”, diz.
 
 

Diretora executiva da Inteligência Educacional, Millena Araújo, diz que a pandemia fez perceber um avanço mais rápido na integração de ferramentas on-line na educação (Foto: Divulgação)

 
A diretora acredita que e educação do futuro pode ser híbrida se o acesso às tecnologias for proporcionado, com foco em uma inclusão real, mesclando o presencial e atividades e ferramentas tecnológicas. Para isso, pensar em uma nova metodologia será essencial. “A educação não será a mesma e uso da tecnologia estará cada vez mais presente. Os professores e alunos vivem nesse momento uma profunda transformação das práticas”, afirma Milena.
 
A diretora destaca ainda que é possível se inspirar nas práticas educacionais que já vêm sendo adotadas em outros países, como Japão, Islândia e Estados Unidos, para adotar novos modelos educacionais no Brasil. “Temos que reconhecer que o mundo inteiro está tendo que se reinventar. Precisamos entender que todos se transformaram em uma nova escola. Alguns possuem mais estrutura tecnológica que outros, permitindo essa integração, mas todos estão em momento de aprender e reaprender”, encerra.
 
Consumidor mais exigente na gastronomia
O presidente da Associação Brasileira de Bares e Restaurantes de Goiás (Abrasel Goiás), Fernando Jorge afirma que o setor espera que no período pós-pandemia o consumidor fique mais exigente. “Todos vão procurar locais que tragam segurança para se alimentar. No delivery, as embalagens serão essenciais para ter uma venda segura com lacre de segurança”, destaca.
 

(Foto: divulgação)
 
Para ele, o “novo normal” nos bares e restaurantes serão as cenas já costumeiras. “Eu acredito que voltará com toda força o jeito antigo de ser: todo mundo junto e misturado se abraçando, beijando e comemorando momentos juntos”, diz.
 
 

Presidente da Abrasel Goiás, Fernando Jorge, diz que cenário é preocupante, mas abertura no exterior traz esperança (Foto: Nathália Freitas)
 
Empresários do setor enxergam a situação atual com muita preocupação, já que os estabelecimentos alcançam 80 dias de fechamento. “Nenhuma atividade econômica aguenta ficar fechada tanto tempo. Isso acumula encerramentos de empresa e demissões em massa”, afirma. Ele ressalta que a Abrasel está à disposição dos associados para dar orientações, além de procurar soluções junto ao poder público e empresas de tecnologia para proporcionar ainda mais aproximação com os consumidores.
 
Entretanto, a recuperação de países do exterior surge como uma esperança para a área. “Vimos nos últimos dias notícias de que em Paris, por exemplo, as pessoas estão retornando a este tipo de consumo. Ver pessoas juntas nos bares e cafés da cidade nos deixou felizes mostrou que tudo pode voltar ao normal em breve”, diz.
 
“O mundo cresce com as inovações”
"Em plena pandemia um fato passou quase despercebido. Há uma semana a primeira nave espacial feita por iniciativa privada entrava em órbita com dois astronautas. Esse é o maior avanço de tecnologia que representa a revolução 4.0. O mundo cresce diante das inovações", é o que destaca o publicitário Marcus Vinícius Queiroz. Ele afirma que vai haver um novo momento planetário, com novos comportamentos e culturas, mas que serão diferentes em cada país.
 
"O novo agora é ter um entendimento mais amplo. Ninguém percebeu que teria que ter um novo comportamento para acelerar processos diante das revoluções tecnológicas. As pessoas resistiam à inovação. Chega um momento como esse que sacode tudo e as pessoas precisam ter um novo comportamento, que vai ser imposto e você não sabe qual é, seja no âmbito econômico, social ou cultural", afirma.
 
"O mundo cresce diante das inovações", diz o publicitário Marcus Vinícius Queiroz (Foto: Esther Teles/A Redação)
 
Na comunicação, a perspectiva é que haja mudanças profundas, mas que modelos mais tradicionais ainda devem perdurar, entretanto, com algumas alterações. "Tudo o que fazemos agora são suposições, mas o que percebemos é que, por exemplo, essa dicotomia entre impresso e digital vai acabar. O impresso vai se recolocar, se readaptar aos fatores, mas vai continuar existindo, porque tem o público que ainda vai querer. Atualmente, com as notícias minuto a minuto e os diversos canais de informação, o jornal do dia seguinte é só um documento daquilo que já se sabe. O que vai se olhar é mais a linha editorial, as análises", ressalta.
 
Para ele, a pandemia obrigou que acontecessem novas experiências, novas formas de entender o mundo. "Tudo isso nos fez ver que somos mais frágeis do que imaginamos. É um momento de reflexão, estávamos muito no automático. Qualidade de vida era ter um bem material, realização financeira e profissional independentemente de todos os lados negativos que vêm em consequência. Vai ser uma readaptação. Tem gente que planeja tudo para o futuro, e no pós-pandemia vai precisar fazer essa reflexão mais profunda. Minha vida é hoje, é agora, quais são os valores aqui pra frente que eu quero? Será um novo exercício de vida", diz.

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