Adriana Marinelli
Goiânia - Na porta envidraçada de uma loja de variedades e produtos personalizados, no Residencial Eldorado, em Goiânia, o movimento de clientes pode até parecer tímido, mas é no barulhinho das notificações do celular que a loja realmente abre e fecha o caixa. O relógio ainda não bateu o meio-dia e Rodrigo Maktub, 34 anos, já conferiu pedidos que vieram de diferentes bairros de Goiânia e de cidades a muitos quilômetros dali. “A loja física nos aproxima do bairro, claro. Mas o coração do negócio pulsa no on-line”, diz o empresário, sócio da marca Achados e Vantagens, enquanto revisa as artes de novos copos personalizados, que são carro-chefe da loja que nasceu no meio digital, em outubro de 2024, e ganhou ponto físico no primeiro semestre de 2025.
Hoje, 90% das vendas da varejista Achados e Vantagens, que também tem como forte a comercialização de itens de decoração, acontecem no e-commerce. O público principal está em Goiânia, mas os pacotes cruzam o País após vendas em diferentes plataformas e, cada vez mais, pelas redes sociais oficiais da marca. “As redes sociais viraram nosso shopping. É lá que mostramos o produto, tiramos dúvidas, fechamos a venda e fidelizamos. Com poucos cliques, a pessoa personaliza, paga no Pix e recebe em casa. Essa comodidade não tem volta”, opina Rodrigo.
Entrada da loja de variedades e produtos personalizados /pacotes que
serão enviados para todo o Brasil após vendas on-line (Fotos: Rodrigo Maktub)
O contexto macroeconômico não é exatamente confortável. Juros altos, instabilidade financeira e inadimplência pressionam consumidores e lojistas. Ainda assim, o digital segue abrindo caminho. “Mesmo com a renda apertada, o cliente escolhe o canal mais simples e transparente. No on-line, ele compara preço, prazo e versão do produto em minutos. A loja física virou extensão da experiência, não o contrário”, explica o empresário.
Empresário Rodrigo Maktub (Foto: Adriana Marinelli/jornal A Redação)
Dados ajudam a entender por que histórias como a de Rodrigo deixaram de ser exceção para virar estratégia.
Segundo o Instituto Brasileiro de Geografia Estatística (IBGE), no acumulado dos 12 meses encerrados em maio de 2025, as vendas do comércio varejista cresceram 3,0%, enquanto o varejo ampliado, que, além das atividades tradicionais, inclui veículos, motos, partes e peças, material de construção e o atacado especializado em alimentos, bebidas e fumo, avançou 2,4%. Na fotografia por Unidades da Federação, o varejo ampliado cresceu em 23 Estados nesse mesmo acumulado.

Há, porém, uma desaceleração do ritmo. No acumulado até janeiro de 2025, o varejo ampliado crescia 3,4% e o varejo, 4,0%. Ou seja, o setor continua em terreno positivo, mas com passo um pouco mais curto.
Do lado das famílias, o Banco Central mostra como a pressão do crédito pesa nas decisões de compra. O comprometimento da renda com dívidas subiu de 47,7% em abril de 2024 para 48,9% em abril de 2025. Em outras palavras, mesmo com renda real em alta, mais renda está “amarrada” a boletos e parcelas, cenário que tende a favorecer canais de venda capazes de oferecer conveniência, comparação e meios de pagamento ágeis. "Se a gente facilita o caminho, a venda acontece”, resume Rodrigo.
Em Goiás, as vendas do e-commerce cresceram 399,2% nos últimos sete anos, um dos maiores avanços do País, segundo levantamento divulgado no final de 2024 pela Federação do Comércio de Bens, Serviços e Turismo do Estado de São Paulo (Fecomércio-SP). O dado ajuda a explicar por que marcas nascidas na internet, como o caso da goiana Achados e Vantagens, ganham densidade local sem abrir mão do alcance nacional.

As projeções reforçam que o fôlego do digital está longe de terminar. O estudo “Guia de Expansão Global para Mercados de Alto Crescimento”, da Nuvei, estima que o varejo on-line no Brasil deve mais que dobrar o faturamento até 2027, saltando de US$ 137,3 bilhões neste ano para US$ 297,7 bilhões. O comércio eletrônico como um todo também deve acelerar, passando de US$ 346,3 bilhões em 2024 para US$ 585,6 bilhões em 2027, representando alta de 70%.
A fórmula por trás dos 90% de vendas da loja de Rodrigo Maktub combina vitrine ativa em redes sociais, atendimento ágil e integração com plataformas de marketplace e entregas. “A rede social é a porta de entrada. O pós-venda, enviar o código de rastreio, confirmar se chegou tudo certo, pedir autorização para publicar a foto do cliente... Tudo isso é o que transforma uma venda em comunidade”, afirma o empreendedor.
Para um ambiente de consumo pressionado por juros e endividamento, o varejo on-line oferece três antídotos imediatos, conforme pontua Rodrigo. "Comparação, conveniência e confiança. Comparar preços e prazos reduz o custo de decisão; comprar com poucos cliques reduz atrito; e acompanhar o pedido até a entrega aumenta a percepção de segurança", reforça.
Entre os consumidores que ajudam a consolidar o avanço do e-commerce está a correspondente bancária Renata Aparecida de Souza, de 39 anos. Adepta das compras on-line, ela diz que busca praticidade e transparência ao escolher onde comprar. “Eu procuro lojas que tenham preços compatíveis com os das lojas físicas, mas que ofereçam facilidades, como entrega grátis ou promoções especiais. Esse tipo de benefício faz toda a diferença na hora de decidir onde fechar o pedido”, afirma.
Renata conta que gosta de arrematar a compra, quando possível, por aplicativos de mensagens, especialmente o WhatsApp. Para ela, esse contato aproxima cliente e vendedor. “No WhatsApp eu consigo tirar dúvidas rápido, pedir mais fotos e até negociar. Sinto que o atendimento é mais personalizado e que a loja está realmente preocupada em me atender bem”, explica.
Renata gosta da praticidade de comprar com poucos cliques (Foto: Ana Stella/jornal A Redação)
Mesmo otimista com a comodidade do digital, Renata não abre mão da cautela. Ela pesquisa a reputação do estabelecimento antes de confirmar o pedido, observa comentários de outros compradores e desconfia de ofertas muito abaixo da média. “A gente precisa ter atenção. Olho sempre as avaliações e tento confirmar se a loja é real. Quando encontro uma que une bom preço, segurança e atendimento próximo, viro cliente fiel”, conclui.
Renata não está sozinha em sua preferência por arrematar compras pelas redes sociais. O hábito de usar aplicativos de mensagens e plataformas digitais para fechar pedidos vem se consolidando como parte essencial da experiência de consumo no Brasil. Hoje, 30% dos consumidores já utilizam o WhatsApp como canal direto de compra, segundo o relatório CX Trends 2025, da Octadesk em parceria com o Opinion Box. Mais do que vitrine, o aplicativo tornou-se balcão de vendas e também de fidelização.
A mesma pesquisa revela que 33% dos clientes preferem o WhatsApp no pós-venda, superando canais tradicionais como o e-mail e o telefone. Isso mostra que, para além da praticidade de comprar, os consumidores buscam atendimento contínuo e próximo, algo que se aproxima da experiência da loja física. “No WhatsApp a gente sente que fala com alguém de verdade, não com uma máquina. Essa proximidade pesa muito”, confirma Renata, ao reforçar que, em tempos de inteligência artificial, o digital pode, sim, ser humano.
Em Goiás, esse comportamento já se reflete nas estratégias dos negócios, incluindo setor varejista. De acordo com a
Pesquisa Pulso dos Pequenos Negócios, do
Sebrae Nacional, 74% dos empreendedores do Estado usam as redes sociais para vender, com destaque para o WhatsApp (81%), seguido do Instagram (60%) e do Facebook (25%). Marketplaces (17%) e sites próprios (10%) completam a lista. O resultado mostra que, assim como na rotina de Renata, as redes sociais se consolidaram como a principal porta de entrada para transformar cliques em clientes.
*Fonte: Sebrae
Entre os pontos que puxam esse movimento, destacam-se a consolidação do Pix como um dos meios de pagamento preferidos, a adesão crescente da população à cultura digital e o avanço da logística nas principais verticais do varejo. A análise é de Wanderson Lima, gerente de Negócios e Relacionamento da
CDL (Câmara de Dirigentes Lojistas) Goiânia. De acordo com ele, a chave para entender esse avanço está no novo perfil do consumidor. “O crescimento do comércio eletrônico se consolidou basicamente porque o comportamento do consumidor mudou. Ele busca conveniência, preços diferenciados, rapidez e, principalmente, facilidade de acesso direto pelo celular. O Pix, por exemplo, reduziu barreiras e agilizou pagamentos, tornando a experiência mais fluida e aumentando a confiança nas compras digitais”, complementa.
Wanderson Lima, gerente de Negócios e Relacionamento da CDL Goiânia (Foto: arquivo pessoal)
O gerente lembra que, embora as compras presenciais ainda tenham força, a jornada do cliente já não se limita ao balcão. “Mesmo quando vai até a loja, o consumidor costuma pesquisar antes no ambiente on-line. Ele está mais conectado, exigente e acessível", diz. Na visão do representante da CDL Goiânia, o desafio agora é integrar canais para não perder oportunidades. “Essa busca pelo on-line não vai acabar, mas também não elimina o presencial. O empresário precisa se adaptar a um modelo mais omnichannel, aproveitando todas as frentes. Hoje já temos opções como o ‘clique e retire’, em que o cliente compra no digital e retira na loja, ou o showroom, onde pode ver o produto antes de fechar o pedido. O importante é oferecer alternativas que unam conveniência e confiança, garantindo a melhor experiência possível”, completa.
No embalo dessa transformação digital, a RR Power Shape, varejista de moda fitness fundada no primeiro semestre deste ano em Goiânia, já se mostra como exemplo dessa lógica do mercado evidenciada pelo poder da internet. Apesar da loja física em pleno funcionamento no Setor Celina Park, é no ambiente virtual que a marca, que aposta em roupas masculinas e femininas, conquista a maior parte dos clientes. “A vitrine da loja hoje não está só nos cabides, está na tela do celular. Cada postagem é uma chance de vender e de fidelizar”, afirma Renato Matos, proprietário da RR Power Shape.
Varejista de moda fitness busca intensificar presença no meio digital para ampliar vendas (Foto: Anna Stella/jornal A Redação)
Com presença no Instagram e no WhatsApp ainda tímida, a empresa tem usado as redes sociais para expor produtos e criar relacionamento com o público. Os conteúdos incluem vídeos de clientes vestindo as peças, o que aproxima a marca do dia a dia dos consumidores. “Quando mostramos alguém real usando nosso produto, geramos identificação e confiança. Isso pesa muito na hora da compra”, destaca Renato.
O empresário garante que a trajetória da RR Power Shape está apenas no começo, inclusive no campo virtual, e projeta novos passos para consolidar o negócio. Entre eles, ampliar o conhecimento em marketing digital e explorar cada vez mais ferramentas de anúncios segmentados e gestão de e-commerce. “A internet é um mundo de oportunidades, mas exige preparo, né? Quero aprender ainda mais para alavancar nossas vendas on-line”, reforça.
Para empreendedores que, como Renato Matos, buscam alavancar seus negócios no varejo, a CDL Goiânia tem atuado como parceira estratégica ao oferecer capacitação e soluções tecnológicas. Segundo Wanderson Lima, gerente de Negócios e Relacionamento da entidade, há cursos, palestras e workshops, voltados para a gestão de redes sociais, implementação de e-commerce, tráfego e utilização de inteligência artificial na jornada de compra e de venda. "Buscamos sempre oferecer ferramentas e capacitação para o empresário, tanto associado quanto não associado”. Os cursos podem ser conferidos no próprio site da CDL, por meio da aba
Escola de Negócios.
Página da Escola de Negócios no site da CDL Goiânia traz cursos focados na venda on-line e também em outras áreas (Foto: reprodução)
Além da formação, a CDL Goiânia também investe em conexões que ampliam as possibilidades de crescimento dos empreendedores. “Temos parcerias que trazem soluções tecnológicas para todos os associados. Nossa missão é fortalecer o conhecimento e levar recursos para que os empresários cresçam e prosperem, principalmente os pequenos e médios empresários que utilizam muito as plataformas de mensagens e redes sociais, não só como divulgação, mas também como plataforma de compra”, reforça Wanderson.
Com olhar otimista para o futuro, Wanderson Lima reforça que a CDL Goiânia quer ser aliada constante dos empreendedores em um cenário de transformação acelerada. “A expectativa é de que o varejo continue crescendo, possivelmente até dobrando nos próximos anos. Nosso papel é servir como guia para que os negócios se adequem às novas tendências, às exigências do consumidor e às ferramentas que vão surgindo. Queremos apoiar o empresário, levar fortalecimento e crescimento, para que ele continue investindo, prosperando e atendendo todas as necessidades do mercado”, conclui.