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Guilherme Menezes

Déficit de atenção, será???

Pessoas fazem uso equivocado de remédios | 17.09.12 - 15:39

Goiânia - Quando iniciei na especialidade de Neurologia Infantil, em meados dos anos 90, só se falava em dislexia, principalmente após depoimento do ator americano Tom Cruise. Os consultórios fervilhavam de supostos portadores deste distúrbio. As escolas, revistas, programas matinais de TV debatiam o tema à exaustão.
 
O tempo passou, o assunto esfriou e passados alguns anos convivemos novamente com outro diagnóstico que virou lugar comum: o Transtorno do Déficit da Atenção, combinado ou não com outro tema também não menos na moda, a hiperatividade. É uma doença nova? Tem cura? Existem exames comprobatórios? Dúvidas não faltam e tentarei discorrer a seguir sobre os erros comuns e sobre o que de fato é verdade ...
 
Não se trata de diagnóstico novo, nem tampouco houve aumento na sua incidência; mas da mesma forma do boom da dislexia, a superexposição ao tema junto à comunidade educacional ou aos profissionais vinculados à população infantil, tem corroborado no grande aumento de demanda de crianças e adolescentes com encaminhamentos sugerindo tratamento. A atual nomenclatura já sofreu inúmeras variações, desde a incômoda denominação "disfunção cerebral mínima", passando pelo termo distúrbio, até o atual transtorno, na tentativa de melhor qualificar os sintomas e explicar suas causas.

A grande confusão está em imaginar o diagnóstico tão somente porque a pessoa é distraída ou porque tem baixo rendimento escolar. Não é tão simples assim, da mesma forma que não podemos confundir criança agitada como sendo hiperativa, embora possa significar a mesma coisa, como sinônimos da língua portuguesa .
 
O diagnóstico é essencialmente clínico e exames somente são necessários para descartar alguma outra hipótese. Os sintomas demonstram prejuízo pessoal, tanto em casa, no trabalho ou na escola, mas é interessante saber que não se trata de desinteresse, preguiça e o nível intelectual destes portadores é normal e não raramente acima da média.
 
Portanto, o diagnóstico preciso, feito por profissional qualificado e habilitado, vai identificar as verdadeiras causas de distúrbios de memória, concentração ou de aprendizado e separar quem de fato pode beneficiar-se de medicamento, pois o que vimos hoje é uma enxurrada de pessoas fazendo uso equivocado de remédios.
 
Guilherme Menezes - Especialista em Neuropediatria pela Universidade Federal de São Paulo; médico do corpo clínico do Hospital da Criança em Goiânia  

Comentários

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  • 02.10.2012 21:02 Clarissa Vaz Gomes de Melo

    Exatamente Guilherme! Um exame clínico bem feito e avaliação neuropsicológica identifica as alterações das funções cognitivas preservadas e com prejuízos para orientar, habilitar ou reabilitar o paciente. Quanto a medicação há casos que realmente o paciente necessita, mas deve ser muito bem avaliado devido aos efeitos colaterais. Como psicóloga com ênfase em neuropsicologia percebo o aumento do assunto nos consultórios e com os pais e professores. Com isso, além dos atendimentos, esclareço a quem for pertinente sobre o comportamento da criança e seu desenvolvimento para uma melhor compreensão do que é ser agitado, curioso, inconstante, disperso, para o que é ter déficit de atenção e de hiperatividade. Parabéns por questionar pois assim todos se atentam! Assim espero! Abraços!

  • 02.10.2012 18:43 Adriana Borges

    Fantástico! Já era hora de alguém publicar com autoridade sobre o tema. TDAH virou moda e muita gente está sendo prejudicada com esse novo boom! Tá na hora dos pais e escolas acordarem para essa nova geração de crianças, também denominada "Y", que são questionadoras, ativas, e que dão trabalho, sim! Filho dá trabalho desde sempre,imagina na era da informação e da interação na ponta dos dedos! Tratamento para quem precisa, sempre.

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