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Gismair Martins Teixeira

Aristóteles e os dinossauros

| 02.03.16 - 18:26
Goiânia - No ano de 1923 foi publicado o "Manifesto das Sete Artes", que fora concebido em 1912 pelo poeta e crítico de cinema futurista, o italiano Riccioto Canudo. No manifesto é apresentada pela primeira vez a noção de cinema como sendo a sétima arte, que englobava as demais manifestações artísticas em sua práxis. A literatura está representada no conjunto da imagem em ação pelo roteiro e, ainda, de forma mais elidida, pelo vínculo com a tradição oral de que surge a literariedade em séculos recuados.
 
Primeiro sistematizador do que viria a ser séculos depois a ciência literária, Aristóteles registrou em sua Arte Poética o princípio divisor de águas entre a produção literária e a produção historiográfica. No início do nono livro de Arte Poética, escreveu o filósofo estagirita acerca do que diferencia o historiador e o poeta (escritor) em suas obras registradas pela escrita: "um escreveu o que aconteceu e o outro o que poderia ter acontecido". A produção cinematográfica comercial, através de seus roteiristas, tem trabalhado de forma bastante interessante o princípio aristotélico em suas produções.
 
Em alguns casos, a apropriação é praticamente literal, como fizeram os três roteiristas da animação O Bom Dinossauro, produzida pela Pixar/Disney. Meg LeFauve, Peter Sohn, Bob Petersen partiram exatamente do princípio aristotélico em torno da proposição de que os escritores narram "o que poderia ter acontecido". Nas prodigiosas imagens computadorizadas da animação O Bom Dinossauro, que engrossa a fileira desse gênero de película, o espectador pode contemplar em impressionantes imagens a reescrita da história que a ciência atual toma como a mais provável para a eliminação dos dinossauros há 65 milhões de anos, no final do período cretáceo.
 
De início, tem-se a representação do cinturão de asteroides, composto de um número expressivo de grandes blocos de pedra que se chocam constantemente. Em uma trombada cósmica mais forte, um deles se desgarra e é capturado pelo campo gravitacional da Terra, vindo em direção ao planeta. As imagens mostram o percurso, dando a entender que seria uma reprodução do que a ciência atualmente diz a respeito. No entanto, a imagem se desloca e mostra uma grande quantidade de dinossauros pastando à noite.

Eles têm a sua atenção despertada para o evento astronômico, que no entanto se reduzirá a uma estrela cadente que passa rapidamente, despertando a atenção dos dinos, que logo em seguida voltam a pastar sossegadamente. O tom aristotélico está dado: e se o asteroide tivesse passado apenas de raspão, como as pesquisas atuais têm demonstrado ser bastante comum? O que teria acontecido em seguida?
 
Evolução paralela e religiosidade
Os roteiristas de O Bom Dinossauro trabalham, portanto, com a premissa de que os dinossauros foram salvos da extinção. A partir daí, dão asas à imaginação. No entanto, ainda conforme Aristóteles em Arte Poética, a imaginação deverá ser tanto filosófica quanto verossímil. A animação da Pixar/Disney trabalha com a possibilidade de uma evolução paralela entre os humanos e os dinossauros, embora o foco mais humanizado recaia sobre os grandes répteis, o que é natural, levando-se em consideração que a trajetória dos animais gigantescos é que deve ser mais perspectivada.

No relato, o homem, representado por um selvagem garoto das cavernas, conviverá com dinossauros, fazendo pressupor que muito tempo tenha se passado desde que o fatídico asteroide errou o seu alvo. Ou seja, o hiato de tempo abrange do fim da era mesozoica até a era cenozoica, quando o homem aparece no período quaternário.
 
A narrativa de O Bom Dinossauro apresenta a história de formação de um apatossauro filhote. Nascido ao mesmo tempo em que os irmãos, Arlo é bastante medroso em relação ao mundo hostil que o cerca. Pertencente a uma família de dinossauros agricultores, o dinossaurinho seguirá o caminho cuja estrutura literária é representada pelo bildungsroman, ou  romance de formação. Arlo será estimulado pelo pai sábio a tornar-se como o irmão e a irmã corajosos e plenamente adaptados. Em uma expedição de crescimento interior promovida por seu pai, que remete ao conceito da jornada do herói de Joseph Campbell, o pequeno apatossauro testemunha a morte paterna em uma tempestade seguida de uma avalanche colossal.
 
Algum tempo após a perda do pai, Arlo cai em um rio e é levado para longe de onde vive com a mãe e os irmãos, tendo de aprender a lidar com as situações de perigo de um mundo bastante hostil. Nesse ínterim, desenvolve amizade com um filhote humano, que se apresenta a ele e, por extensão, ao espectador, em segundo plano, como se fora o animal de estimação do dinossauro humanizado.

Em determinado lance dramático da narrativa, o pequeno apatossauro vê o pai que julgava morto, que o estimula e o orienta para que cresça interiormente. Arlo só percebe tratar-se da forma espiritual paterna quando repara que as pegadas na lama representavam apenas uma sequência de patas, que eram as suas, o que evoca a intertextualidade dessa passagem com a letra da canção Pegadas na Areia. Ao constatá-lo, o pai desaparece, mas a lição fica e será seguida, culminando no processo de amadurecimento mental e emocional de Arlo, o que se refletirá na sequência da trama no momento de enfrentar as adversidades que ainda o aguardavam.
 
Em Arte Poética, Aristóteles afirma logo em seguida à proposição de que ao poeta compete narrar aquilo que poderia ter acontecido: "Por tal motivo a poesia é mais filosófica e de caráter mais elevado que a história, porque a poesia permanece no universal e a história estuda apenas o particular". O Bom Dinossauro parece confirmar o enunciado aristotélico. Os fatos narrados se apoiam pela historiografia científica na teoria de que um asteroide extinguiu os répteis gigantescos que habitavam o planeta Terra há cerca de 65 milhões de anos. Os roteiristas, que aqui fazem as vezes dos poetas, descreveram em O Bom Dinossauro uma das infinitas possibilidades do que poderia ter acontecido caso a malfadada rocha espacial não houvesse atingido o mundo dominado pelos dinossauros.
 
Em resumo, caso os dinossauros houvessem desenvolvido uma consciência noética, desenvolveriam os conhecimentos que são patrimônio da humanidade, como a filosofia, e viveriam dramas, angústias e vitórias que são inerentes à condição humana. Daí a conceituação de Aristóteles de que a poesia é mais filosófica do que a história, permanecendo no universal, sendo que esse universal filosófico passa, por sua vez, pela proposição de que o escritor, no caso os roteiristas, narraram "o que poderia ter acontecido" de forma extraordinariamente lúdica.

*Gismair Martins Teixeira é doutor em Letras e Linguística pela Universidade Federal de Goiás; professor do Centro de Estudo e Pesquisa Ciranda da Arte, da Secretaria de Estado de Educação, Cultura e Esporte de Goiás.
 

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