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Gismair Martins Teixeira

A dialética da utopia em roteiros de viagens espaciais

| 03.02.17 - 10:57
Goiânia - Ao longo da história do pensamento, célebres nomes de áreas diversas escreveram obras sobre um lugar e um tempo futuro que seriam reflexos lógicos e possíveis de variáveis que marcaram o presente desses autores. Os exemplos mais emblemáticos de produções literárias desse gênero são: “A República”, de Platão; “O Apocalipse” da “Bíblia”, atribuído a João Evangelista; “Nova Atlântida”, de Francis Bacon e “Utopia”, de Tomas More.

O título dessa última obra se tornou extensivo à estrutura imaginária que trata das criações fictícias em torno de realidades sociais de épocas e/ou lugares futuros, no contexto do que Gilbert Durand denomina, na criação artística, de “função fantástica”. Nas últimas décadas, um dos campos artísticos mais férteis de histórias perscrutando o futuro foi, e ainda é, o cinema.

Através de roteiros instigantes, manifestação literária da práxis cinematográfica, a sétima arte tem se aproveitado da adaptação de obras literárias diversificadas para a construção de todo um acervo que trabalha com projeções futurísticas baseadas nas especulações do presente. No que diz respeito à utopia e sua definição de sociedade imaginária irrealizável, posto que harmônica, é interessante observar que ela apresenta um processo dialético que no cinema aparece muito bem caracterizado em produções específicas, que podem ser comparadas entre si.

Assim, dialeticamente a utopia se opõe à distopia, que se configura como sua antítese. Como resultado da trindade dialética tese-antítese-síntese, há um entremeio que contempla sinteticamente o que é apresentado pela tese-utopia e pela antítese-distopia. Os recentes roteiros de cinema que tratam de viagens espaciais têm apresentado interessantes elaborações futurísticas que servem de base para essa modalidade de viagem que atualmente se tornou uma meta de programas espaciais mundo afora, conforme a mídia tem noticiado fartamente.
 
A dialética utópica em três momentos
No começo de janeiro deste ano estreou nos cinemas mundiais a produção intitulada “Passageiros”. O filme dirigido por Morten Tyldum, que traz no enxuto elenco a presença de Jennifer Lawrence, Chris Pratt, Michael Sheen e Laurence Fishburne, além de alguns poucos figurantes, tem a sua narrativa escrita por Jon Spaiths ambientada num futuro utópico. Cenas breves apontam uma Terra totalmente urbanizada, em que todas as necessidades materiais parecem ter sido resolvidas.

As viagens espaciais se tornaram corriqueiras nesse futuro utópico, logo harmônico. Dezenas de planetas se tornaram colônias terráqueas, numa galáxia que atualmente os cientistas estimam que contenha 40 bilhões de planetas semelhantes ao nosso “lindo balão azul”, conforme cantava Guilherme Arantes. Uma gigantesca nave voa pelo espaço rumo ao planeta “Homestead 2”, num percurso que terá a duração de 120 anos. Os cinco mil passageiros se encontram em estado de hibernação.

À semelhança de um gigantesco Titanic espacial, a nave se choca com fragmentos espaciais que causam danos mínimos que se tornarão gigantescos com o passar do tempo. Uma das cápsulas de animação suspensa apresenta um defeito e um dos passageiros desperta quando já haviam se passado “apenas” 30 anos da viagem. Ou seja, mesmo em um futuro utópico, problemas ainda podem ocorrer.

Outra produção exopoética recente do cinema, que foi muito bem recebida pela crítica e pela comunidade científica pela sua verossimilhança com os estudos astrofísicos, é o filme “Interestelar”, que estreou em 2014. Dirigido por Christopher Nolan e estrelado por Matthew McConaughey, Anne Hathaway, Jessica Chastain e Michael Caine, dentre outros, “Interestelar” tem o roteiro a quatro mãos assinado por Christopher Nolan e Jonathan Nolan.

Em sua narrativa, o futuro da Terra apresenta uma antítese ao de “Passageiros”. Ondas gigantes de poeira invadem o planeta, prenunciando a morte das formas de vida que ele abriga. O solo estéril já não mais produz e a necessidade de colonizar outros mundos é premente. Um atalho no espaço-tempo conhecido vulgarmente como “buraco de minhoca” surge misteriosamente nas proximidades de um dos planetas do sistema solar, permitindo à humanidade visitar três mundos que mais se assemelham à Terra para o estabelecimento de uma nova era de colonização na história da humanidade.

Ou seja, a motivação das viagens espaciais no filme é o futuro distópico de um mundo exaurido em seus recursos pela ganância e pela insensatez humanas que são característicos do tempo presente e que podem transformar em realidade um futuro tão sombrio. Assim, a colonização de outros planetas é um ponto em comum entre as duas produções. O motivo é que se mostra antitético. Em “Passageiros” é um futuro utópico que serve de motivo. Em “Interestelar” é um futuro distópico que motiva a busca por outros mundos na imensidão do espaço.

Por sua vez, em “Wall-E”, animação produzida pela Pixar em 2008, com roteiro assinado por Andrew Stanton e Jim Reardon, tem-se a síntese dos futuros utópicos e distópicos de “Passageiros” e “Interestelar”. No ano de 2100, o que restou da humanidade vive em uma gigantesca nave espacial que viaja pelo sistema solar à espera de que a Terra volte a ter condições de habitabilidade. O lixo tomou conta de todo o planeta. Os arranha-céus disputam espaço com montanhas de lixo. Na gigantesca nave, os humanos têm sua forma física alterada pela longa exposição a uma gravidade artificial.
 
Uma sonda é enviada à Terra para verificar se alguma forma de vida vegetal, por assim dizer, já poderia estar germinando no estéril mundo. Um exemplar é encontrado pela sonda chamada emblematicamente de Eva, o que faz com a tripulação retorne ao planeta, dando início a um processo de despoluição global que faz adivinhar que de um mundo distópico a Terra se converterá em uma região utópica, numa síntese que resume possibilidades do que apresentam os roteiros de “Interestelar” e “Passageiros”.
 


*Gismair Martins Teixeira é doutor em Letras e Linguística pela Universidade Federal de Goiás e professor do Centro de Estudo e Pesquisa Ciranda da Arte da Seduce-GO.


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