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Gismair Martins Teixeira

“Os Menestréis”, a estrela-do-mar e outras estrelas

| 29.06.17 - 12:37 Goiânia - As fábulas são recursos narrativos que remontam à mais alta antiguidade. Uma de suas características básicas é o aproveitamento da figura de linguagem denominada prosopopeia, ou personificação, que atribui características humanas aos animais e aos seres inanimados. Nomes como o de La Fontaine se tornaram célebres no gênero ao coletar fábulas populares, registrando-as em livro. Assim como a mitologia surge a partir da observação da natureza e seus fenômenos, atribuindo-lhes significados ontológicos (relativos ao ser), a fábula pode ser pensada como uma espécie de micromitologia.

Os lugares e as culturas possuem suas fábulas particulares, criadas muitas vezes a partir da observação que incide sobre seres exóticos. É o caso da estrela-do-mar, estranho e fascinante animal marinho que habita os mares mundo afora. Okinawa, no Japão, possui uma narrativa específica para o seu surgimento. No Brasil, vigora outra fábula para a sua origem, cuja narrativa é instigante e sugestiva de reflexões, o que também caracteriza o gênero.

Reza a narrativa que um pequeno grão de areia na praia olhou para uma brilhante estrela no céu. Apaixonou-se, dizendo a ela coisas de amor. Ninguém saberia dizer como as coisas ocorreram, se houve ou não alguma coisa entre os dois, nem quanto tempo se passou no suposto romance de ambos. O certo é que algum tempo depois apareceu nas amplidões marítimas a estrela-do-mar.

No início dos anos 50 do século passado, os compositores Marino Pinto e Paulo Soledad captaram à La Fontaine a fábula popular sobre o surgimento da estrela-do-mar para uma letra musical, que recebeu o título de... “Estrela-do-mar”. A letra da música expressa, com algumas das palavras com que foi apresentada acima, a relação do insólito casal, num romance só possível no universo da ficcionalidade.
 
Encontro de estrelas 
Em seu tratado sobre estética, intitulado “Obra Aberta”, Umberto Eco discorre sobre aquilo que poderíamos chamar de unicidade da performance, bem como unicidade da fruição. Em outras palavras, mesmo que um espetáculo tenha o mesmo repertório, a performance de cada apresentação jamais seria igual, o que só se torna perceptível em muitos casos somente pela sutileza própria do universo das artes. Princípio semelhante valeria para a fruição do público em relação ao show apresentado.

No último dia 22 de junho, em Alto Praíso, ocorreu um exemplo singular desses momentos únicos que só a performance artística pode proporcionar e que, no caso, pôde contar com uma contribuição não menos singular da natureza. Quem acompanhou a magistral apresentação do grupo “Os Menestréis”, do Centro de Estudo e Pesquisa Ciranda da Arte, durante o “Festival de Humanidades”, do IPEARTES, sob a tutela da Seduce-GO e da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de Goiás (FAPEG), dentre outras instituições, testemunhou um curioso fenômeno.

O espetáculo “Amor e Caos”, de “Os Menestréis”, apresenta uma coletânea de músicas que foram sucesso entre os anos 40 e 60 do século 20. O material de divulgação do show especifica que a apresentação do grupo “conta por meio de uma radionovela os dilemas de um relacionamento amoroso específico das décadas de 30 a 50, de forma saudosa e cômica. Para tanto, foi realizada uma pesquisa sobre as músicas e principais compositores e intérpretes da era do rádio”.

Informa, ainda, que o grupo priorizou a escolha de canções que valorizassem as idas e vindas dos relacionamentos românticos, como encontros, encantamento, desilusão, ressentimento, mágoa e separação. Assim, nomes de compositores e intérpretes da metade do século passado que marcaram época, como Pixinguinha, Dolores Duran, Edith Piaf, João do Vale, Marino Pinto, Paulo Soledad, Lupicínio Rodrigues, Ataulfo Alves e Adelino Moreira, dentre outros, são contemplados na extraordinária performance artística e cultural de “Os Menestréis”.

Formado pela soprano Sheila de Paiva, pela contralto Roberta Borges e pelo tenor José Ricardo Eterno, o grupo conta com os músicos Sergio de Paiva ao piano, José de Geus na  clarineta e na flauta doce, Valdemar Alves no violão e Diego Amaral na percussão. Com a direção musical e coordenação de Roberta Borges,        o grupo tem em seu elenco Edimar Pereira na iluminação, concepção cênica, narração e roteiro; o artista plástico Tolentino responde pelo cenário; Joana Borges e Karla Borges cuidam do figurino, enquanto Valdemar Alves é o responsável pela gravação do roteiro e a vinheta fica sob os cuidados de Sergio de Paiva. Por fim, os arranjos (vocais e instrumentais) e as transcrições correm por conta de Roberta Borges dos Santos.

Os profissionais que compõem “Os Menestréis” são professores da Secretaria de Estado de Educação, Cultura e Esporte de Goiás. Arte-educadores por formação, os componentes do grupo musical participam da cena artística goiana, enriquecendo-a sobremaneira. Famosa no Brasil pela sua riqueza musical alternativa, Goiânia tem na performance artística e cultural de “Os Menestréis” uma proposta que em muito contribui para essa riqueza, pois o grupo resgata com muito profissionalismo e competência, para qualquer um que não tenha preconceito de gerações, a época de ouro do rádio no Brasil.

Dessa forma, a radionovela “Amor e Caos”, de “Os Menestréis”, alterna momentos românticos e humorísticos no palco. Na apresentação do “Festival de Humanidades” de Alto Paraíso, o espetáculo aconteceu ao ar livre. O tempo estava totalmente nublado, ventava, e um frio que há muito não se via em Goiás cortava os ares, o que certamente exigiu muito de todo o grupo, tanto na afinação dos instrumentos como nas performances vocais.

Os três cantores alternavam em interpretações solo e em conjunto. Durante a execução da música “Estrela-do-mar”, magistralmente interpretada pela soprano Sheila de Paiva, o espectador que eventualmente tenha olhado para o céu pôde contemplar um curiosíssimo acontecimento, que o cético afirmará com um sorriso sardônico que nada mais representa do que uma feliz coincidência, enquanto os mais místicos e/ou artísticos pensarão em sincronicidade, união do homem e da natureza, mãe Gaya e coisas do gênero.

O fato é que no instante em que a canção descrevia a fábula da estrela-do-mar, filha do grão de areia que se apaixonara perdidamente por uma estrela, abriu-se uma nesga de nuvem sobre o palco e uma brilhante estrela no gélido breu celestial daquela noite em Alto Paraíso estava sobre a intérprete naquele exato momento, como que a contemplar a sua história de amor ou, quem sabe, a história de alguma de suas irmãs. Apontamos o fenômeno a uma pessoa que estava ao nosso lado, que espirituosamente disse: “Deve ser coisas de Alto Paraíso”. Ou das artes, aduzimos.
 

*Gismair Martins Teixeira é doutor em Letras e Linguística pela Universidade Federal de Goiás; professor do Centro de Estudo e Pesquisa Ciranda da Arte da Seduce-GO.


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