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Ralph Waldo Rangel

Convivência escolar e a anomia

| 01.08.17 - 17:23
Convivência é viver junto, seres humanos vivem juntos, é um ato próprio a humanos, dito isso é preciso explicar que coexistência não é o mesmo que convivência, as línguas latinas diferenciam bem a convivência da coexistência, outras línguas não. Coisas coexistem, seres coexistem e os seres humanos coexistem com elas simultaneamente como tal. Viver, além da capacidade de nascer, crescer e reproduzir é também a capacidade de conviver, de aceitar diferenças, aceitar diferentes, aceitar as discrepâncias e até de aceitar os conflitos, desde que não se esqueça dos elementos comuns que possibilitam a convivência.
 
Problemas advindos por falta de regras claras na convivência sempre foi realidade, em qualquer ambiente, desde o momento em que se tem uma relação humana, problemas existirão, logo, se pode pensar: É inevitável! E administrar os problemas será a solução - isso necessariamente não é uma verdade, é preciso antes, pensar as diferenças, pensar as causas dos conflitos, no que consistem, em qual frequência, só assim, me parece inteligível o como, o porquê e seus resultados produzidos.
 
Onde deve ocorrer essa reflexão? Quem a deve pôr em prática? Quem deve orientar e apoiar?
 
É curioso observar educadores e correntes pedagógicas que apontam que é no lar e nos meios religiosos, exclusivamente, que se educa uma criança, que lá, valores morais são aprendidos e que na escola o professor ensina conhecimentos ligados às matérias. 
 
Não seria a escola o local de convivência, de apresentação de forma ordenada ao diferente e ao ideal, de aprendizagem utilizando determinadas pedagogias para a formação social, cultural, moral, espiritual e cívica do ser? Creio que sim!
Proponho uma interpretação funcional da escola, um local que deve também proporcionar aprendizados sobre elementos comuns para a boa convivência, que deve concomitantemente apresentar um sistema justo, institucionalizado, facilmente identificável e que contribua para a melhoria das relações humanas. Que apoiem os pais que precisam e que estão imersos numa rotina alucinante e injusta. Parece simples e lógica tal afirmação, ocorre que a incivilidade, a indisciplina e o ato infracional, estão se manifestando em escolas privadas e públicas, independente da questão social, religiosa ou econômica, dado que existe a relação humana e a ausência do referido sistema.
 
Analisando a situação atual, questiono-me se estaria a escola fazendo a sua parte. O que se observa é o aumento no número de ocorrências ligadas a conflitos e violência no ambiente escolar, e estes números são alarmantes, no Brasil mais de 42% dos alunos já relataram ter sofrido algum tipo de violência, mais de 85% destas ocorrências foram praticadas por alguém ligada ao ambiente escolar – um diretor, professor, servidor ou outro aluno - é preciso fazer algo, e para tal proponho a criação de um conjunto de elementos concretos, intelectualmente e conceitualmente organizados, baseados em recomendas, normas e protocolos apoiados na legislação com uso massivo de tecnologia digital, com objetivo de gerar ações concretas que caminhem para a redução da violência e a melhoria do clima escolar. É neste contexto que se apresenta o projeto Ação 360, uma plataforma tecnológica sistêmica com alto espectro de atuação com foco na redução de indicadores que impedem a melhoria da convivência e do clima escolar.
 
A plataforma empodera os atores, proporciona a identificação dos locais de suscetibilidade, dos períodos, dos dias, meses e anos, dos atores via meio tecnológico digital, os gestores escolares são apresentados a diversos indicadores sociais para implementação de ações pontuais ou preditivas, e, um diferencial é o centro de pesquisas que disponibiliza dados de anotações, indicadores e resultados de ações implementadas, tudo isso sem expor a identidade de tal forma que um efeito colateral não ocorra.
 
Chamo a atenção para os elementos-chave a serem observados do projeto Ação 360: Deve-se estabelecer um comitê centralizado e um comitê na escola para tratar o assunto; Deve-se definir, registrar e medir as ocorrências, relaciona-las a indicadores, ato que chamamos de anotações; Deve-se produzir regras claras e institucionalizadas para a convivência escolar; Deve-se individualizar cada caso, resguardando a identidade de cada ator no ambiente escolar; Deve-se analisar a gestão escolar; Deve-se criar ações sistematizadas para o combate a violência e melhoria do clima escolar - palestras, seminários, debates, atividades pedagógicas, projetos. 
 
Ao promover este conjunto de ações, a escola alcançará como objetivo a promoção de condutas éticas, a redução das violências física e emocionais, a promoção da colaboração entre alunos e professores, a promoção da cidadania, a conscientização e combate a gravidez precoce, a redução de faltas, a redução do desperdício no ambiente escolar, a redução da evasão escolar.
 
Talvez, a etapa mais complexa do projeto Ação 360, seja a de identificar e registrar as ocorrências e seus atores, em qual cenário ocorreu, qual foi o papel de cada ator - os infratores, as vítimas e os observadores; não pela dificuldade operacional em si, mas, pela inação e ingerência que ocorre por falta de uma plataforma digital, já que se trata de um árduo trabalho se feito manualmente. Merece total atenção o papel do “observador”, que é aquela pessoa que sabe o que está acontecendo e não intervêm para ajudar ou contestar, e, portanto, permite, por sua inação, toda situação. Identifica-lo com atenção e capacita-lo para o novo é de fundamental importância. 
 
O observador age motivado inconscientemente pela ausência de uma formalidade sistêmica, já que, qualquer ambiente que proporcione o anonimato ajuda a reduzir a sensação de responsabilidade moral e social. Por esta omissão, os infratores e vítimas sofrem com a experiência de passiva resignação que se segue a fracassos e punições recorrentes, especialmente quando estas parecem arbitrárias e não contingentes à ação de alguém. Em sua maioria, são os observadores os primeiros a se queixarem da situação imposta.
 
Como bem disse Paulo Freire “É preciso passar da cultura da queixa para a cultura da transformação”, é hora de a escola olhar para dentro, de não utilizar o “além muro” como justificativa. É hora dos gestores e professores refletirem os seus papeis, de analisar os fluxos de trabalho, é hora de ter ciência que quando a ingerência se alia com a indecisão e a indiferença o resultado é o fracasso no trato com crianças e jovens em idade escolar, já que as mesmas, por serem submetidas a injustiças, não conseguem tirar vantagens das oportunidades oferecidas pelo sistema escolar, e acabam por serem condenadas a restrição intelectual, social e material que findará na anomia.
 
Por fim, reafirmo que o futuro da escola, como agente social de transformação e de sua própria existência depende de ações direcionadas, pontuais, sistêmicas e institucionalizadas para a superação das barreiras relacionadas às relações humanas, e, infiro ser o projeto Ação 360 um caminho para o êxito do fortalecimento das relações humanas no ambiente escolar por tudo que representa.
 


*Ralph Waldo Rangel é
 especialista em Tecnologia, em Educação e é Superintendente no Estado de Goiás
 

Comentários

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  • 02.08.2017 12:22 Geanne Cardoso

    A escola como meio social de transformação precisa diagnosticar, colocar em prática as ações necessárias para atingir suas metas adequadas a sociedade na qual ela está inserida, envolver a comunidade e claro, como bem menciona o Sr RAlph Waldo, ter ações condizentes as medidas cabiveis quanto unidade educacional.

  • 02.08.2017 11:32 Adoniran

    Temos que demonstrar para a gestão os dados, afim de obter resultados mais urgentes! A ideia eh fantástica!

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