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Bia Tahan
Bia Tahan

Jornalista / bia@palavracom.com

Metrópole

Quando a infância morre

| 16.05.14 - 12:18
Ontem o mundo ficou bem mais triste. Partiu tio Wandinho, o homem de sorriso largo, cabelos fartos e prateados e bom humor incomparáveis. Com o tio Wandinho morreu a criança dentro de mim e a minha infância.

Era ele que, no auge da febre dos patins, pegava sua moto 125 e puxava uma fila indiana de crianças e pré-adolescentes pelas ruas do Setor Marista. A gente agarrava na garupa da moto e ia alegre da vida com aquele  doido sem juízo pilotando aquele trenzinho feliz.

Tio Wandinho era o homem dos apelidos. Eu era (e nunca deixarei de ser) a Samirinha. Meu pai o Árabe, minha irmã Juju Pereba e meu irmão Pedro Gralha. Tinha ainda a Criola (tia Angela), veinha (sua caçula Marcela), gordinha, (a filha Mariella). Talvez o mais engraçado tenha sido o apelido que deu para a governanta dos nossos vizinhos. Dona Vice – na verdade Vizitación – era uma espanhola franquista, que praticamente criou nossos amigos e era linha dura, duríssima.  Virou Fedaputación. Sempre com amor, claro.  Apelidava amigos e desconhecidos de maneira afetuosa. Era acima de tudo um gozador.

Um dos seus passatempos preferidos era encher o saco das pessoas. Na minha infância fui uma das vítimas preferidas das brincadeiras do tio Wandinho. Quando aos 9 ou 10 anos ganhei um relógio de Natal, ele, neuropediatra, arrumava tempo para me ligar 20 vezes por dia e perguntar: “Bia 130, que horas são?”. Eu ficava com ódio.

Ele também sempre me enganava quando eu – diariamente – ligava para sua casa – fomos vizinhos uma vida – para perguntar o que tinha de almoço. Gulosa, eu gostava de comparar o cardápio das duas casas e aí decidir aonde almoçaria. Como ele não era bobo nem nada, nessa hora inventava as maiores delícias – incluindo a sobremesa de banana que eu amava – para me enganar. E eu caía sempre.

Uma outra  famosa dele é quando combinavam de ir para a chácara dos meus tios e Wandinho só para pegar o melhor quarto da casa – e matar meu pai de raiva – dirigia ida e volta 80 km pela manhã bem cedinho até a casa, arrumava a cama com lençol, trancava a porta  e voltava para Goiânia. Assim quando meus pais chegavam alegres acreditando que eram os primeiros a escolher o quarto – eles encontravam o danado trancado. Coisas de Wandinho.

Wandinho era um figura. Era o boêmio que não sabia beber. Misturava qualquer coisa - até o uísque com Coca-Cola. Fingia que bebia, eu acho. E já adulta, ele sempre me pedia “um pito” quando me encontrava. Lá pelos 60 anos, Wandinho também realizou o sonho de virar motociclista. Encontrou logo sua turma, fez tatuagens, colocou a crioula na garupa e foi ser feliz. Fez outros trocentos amigos fiéis, mais uma turma, para agregar aos seus um milhão de amigos.

Ele também era um apaixonado por mulheres. Para ele o ideal de beleza feminina era uma gostosa de mini-saia de franjas e bota branca. Sua tara era bota branca. Sempre falava nisso com a boca cheia. Faltava salivar.

Não sei, mas pelo sorriso que ele tinha dentro do caixão – morreu dormindo –  desconfio que o tio Wandinho uma hora dessas deve estar rodeado de mulheres gostosas – todas elas de mini-saia de franjas e botas brancas.
 
 

Comentários

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  • 26.08.2014 18:45 Marcelo

    Texto maravilhoso Bia. Pintou ele tal qual. Eu era o Papito! Que doido, morrer durmindo. Só ele. Um fora de serie.

  • 21.05.2014 10:38 Gilson Pereira de Sousa

    É verdade Bia, pois, ele deixou órfãs também muitas crianças especiais que ele atendia numa associação filantrópica no setor Leste Vila Nova. Não o conheci, mas uma pessoa de minha inteira confiança trabalha nessa instituição e falou maravilhas do "tio Wandinho". Todos estão com os corações despedaçados com a repentina partida do tio Wandinho. Abraços

  • 19.05.2014 20:26 GUstavo Grilo

    Muito bom o texto. Linda homenagem

  • 17.05.2014 00:55 joao

    belo texto.

  • 16.05.2014 22:39 Willian Schwartz

    Wandinho (Pé na Cova) por ser parecido com Mario Covas, nós motociclistas do RPM o apelidamos assim, tive o privilégio de fazer algumas viagens por esse Brasil afora sentindo o vento ns cara e em cada parada o figura sempre soltava uma. Amigo você fará falta nas nossas viagens, mais ficará para sempre nas nossas memórias !

  • 16.05.2014 21:33 Vania Helena de Oliveira

    Que texto lindo!!! Me emocionei, conheci pouco o Dr. Wander, mais pelos olhos e historias maravilhosas contadas pela querida Angela, era exatamente essa atmosfera que os envolvia. Que Deus conforte a Angela e as meninas, porque o Dr. Wander está levando sua luz a outros Planos.

  • 16.05.2014 20:22 Luciana Alves Antonio Machado

    Bia, vivi tudo isso com tio Wandinho. O meu eterno apelido Lú Coqueiro, aperta meu coração, deixando muita saudade!!!!!

  • 16.05.2014 14:57 CLEO MANHAS

    Bia, lindo, lindo...me encontrei nesta história. beijos

  • 16.05.2014 14:45 Mônica Barros

    Homenagem LINDA! Tocante demais...

  • 16.05.2014 14:19 Christiane Castro

    Adorei, Bia! O texto é o puro retrato do tio Wander - e de uma parte tão querida da nossa infância. Fiquei emocionada.

  • 16.05.2014 13:16 Ana Costa

    Bia querida, fui às lágrimas! Que linda homenagem! E o tio Wander merece. Quantas alegrias ele nos proporcionou...bjs

  • 16.05.2014 12:37 Thais Fleury

    Ai, Bia! Estava com tanta saudade dos seus textos! E esse aqui e' um dos mais lindos que ja li. Que homenagem maravilhosa! Um abraco de conforto pra voce! Beijoca, Biloca!

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