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Pablo Kossa
Pablo Kossa

Jornalista, produtor cultural e mestre em Comunicação pela UFG / pablokossa@bol.com.br

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Defesa do indefensável

Arte de arrumar desculpa para o injustificável | 09.12.14 - 12:45

Talvez o nobre leitor de A Redação não saiba, mas trabalho na Rádio Interativa onde sou comentarista do programa Papo Cabeça. No final da semana passada, entrei em um debate com minha queridíssima amiga Suzy Vieira (ou Tucker, ou Sublime – ao gosto do freguês), que reside já há alguns anos nos EUA, sobre o caso de Eric Garner.

 

Se você não está ligado, a morte desse cara desencadeou essa onda de protestos que está rolando agora nos Estados Unidos e que tem como maior símbolo a frase “I can't breath” - a última pronunciada pela vítima.

 

Vamos a um breve resumo. Garner, o homem morto, tinha 43 anos, era negro e trabalhava fazendo bicos pelas ruas de Nova Iorque. Ultimamente, se dedicava à venda de cigarros nas calçadas da metrópole, atividade considerada irregular. Já havia sido detido 31 vezes por esse ilícito. Estava visivelmente acima do peso.

 

Em julho desse ano, foi abordado pelo policial Daniel Pantaleo, branco, e ofereceu resistência à ação. Recebeu uma chave de braço no pescoço, foi derrubado ao chão, perdeu o ar e morreu devido a um ataque cardíaco dentro da ambulância que foi chamada para atendê-lo. Há poucos dias, o júri popular decidiu não indicar o policial pela morte de Garner. Isso provocou um levante por todos EUA, sendo que os principais foram em Nova Iorque, Chicago, Miami, Boston e São Francisco.

 

Detalhe mais que relevante: existe uma resolução da polícia de Nova Iorque que proíbe abordagens usando a chave de braço por parte dos homens da lei.

 

Voltando ao programa de rádio, quando esse assunto veio à tona, defendi que se o júri não agiu com racismo como acusam os manifestantes e defensores dos direitos civis, ao menos foi equivocado em sua decisão por não levar em conta que a ação foi desproporcional e atentou contra o regulamento da polícia novaiorquina. Suzy discordou. Ela defendeu a ação policial com argumentos que, a meu ver, são a mais pura defesa do indefensável.

 

Entramos em um debate mais ou menos assim:

 

- Mas ele já tinha 31 autuações pela mesma atividade.

 

- Mas mataram o cara, Suzy.

 

- Mas ele ofereceu resistência à polícia.

 

- Mas o policial não poderia dar a gravata no cara segundo a própria polícia de Nova Iorque.

 

- Mas não se trata de racismo.

 

- Tudo bem, pode até ser, mas se trata da morte de um cara em uma ação desproporcional.

 

É claro que não chegamos a consenso algum. Nem é esse o intuito do programa. Mas me impressionou a volta que Suzy dava para defender algo cabal que, repito, ao menos a meu ver, invalida qualquer outro argumento: o cara morreu. Ponto. E o pior, com um tipo de abordagem que é vetado. E o pior de tudo, sem estar armado ou com algum comportamento que justificasse a imobilização de alguém obeso.

 

Não é por menos que I can't breath se tornou o lema dos manifestantes. Se até Suzy, minha amiga de longuíssima data, brasileira de nascença e americana por opção familiar, entende razões para matar alguém com uma gravata, é de me faltar o oxigênio. Eu também não consigo respirar.


Comentários

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  • 15.12.2014 17:50 João Paulo

    Pablão, a parada é o seguinte: Estando certo, eu nunca desobedeci uma ordem policial, nunca bati boca, estando errado então nem se fala. Fatalidades acontecem e minha vida vale ouro, jamais confiaria minha vida à um policial, portanto quando você vacila e o policial vacila você sempre leva a pior. Shit happens.

  • 10.12.2014 15:23 Dr. Witer DeSiqueira, esq.

    Tolerância zero significa, se ordenado parar, PARE. Se ordenado regressar, REGRESSE. Ou o policial tem toda autorização de atirar. Neste caso o correto teria de ser ATIRAR para matar. Infelizmente o policial tentou preservar a vida. Qualquer advogado Americano (www.witeradvogados.com) sabe muito bem que o policial agiu correto.

  • 10.12.2014 10:49 Mara Pessoni

    Acho que esta questão tem dois lados. Um, a vítima era um criminoso recorrente e resistiu a ação do policial. Todos sabem que em Nova York desde a muito tempo existe ordem para a polícia em atirar em quem resiste a prisão (Tolerância Zero). Dois, o policial errou ao agir de forma proibida pela própria polícia. Os dois são culpados pela morte. A vítima por saber que poderia levar um tiro (e não levou) e o policial por ter optado por outra forma de abordagem incorreta. Isso não foi um crime de racismo. Foi um homicídio culposo. Portanto a justiça, deveria punir o policial dentro deste prisma. E todos estas manifestações não aconteceriam se o policial fosse negro (ou melhor, nos EUA se usa a expressão "preto") e a vítima fosse branca. Lá o racismo é bem mais arraigado do que aqui, só que de forma inversa, os pretos é que são racistas; bairros de pretos, brancos não entram. Questão de cultura. Sobre a política do "Tolerância Zero", a mesma fez toda a diferença em NY. Pude constatar isso de perto, andar de metrô meia noite sem ser abordada por ninguém, sem ter que esconder celular, sem medo nenhum.

  • 09.12.2014 23:03 Silvio César

    Pablo matou a questão logo de cara. Mataram o cara e fim de papo! Não existe uma defesa para algo indefensável. O cara foi preso 31 vezes? Se estava solto foi pelo fato da justiça americana conceder a liberdade. Resumindo: cumpriu o que devia, voltou a realizar a mesma atividade, o policial, como bom homem do Estado que é, foi lá e resolveu acabar de vez com a história. E que continue os protestos.

  • 09.12.2014 12:59 Epaminondas

    E é claro que um programa de rádio em Goiás conseguiria chegar a fundo nesta questão. Em NY não se pode dar "chave de braço"? Vamos retroceder há algumas décadas e vamos relembrar da política de segurança "tolerância zero" que Nova York adotou para tentar conter a calamitosa violência que passava. No tolerância zero, jogar papel na rua esta imperdoável, coisa que aqui no Brasil daríamos uma careta blasé. Acho que por aqui encerramos a questão se a polícia deveria agir ou não contra um meliante recorrente, por mais inofensivo fosse seu delito. Justifica matá-lo? Sua morte não foi fruto de uma política de estado, mas os protestantes encaram como tal. Foi uma fatalidade e no julgamento, encararam como tal. O juri, isoladamente, só teve os fatos apresentados pelo tribunal e não pela comoção pública.

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