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Leticia Borges
Leticia Borges

Leticia Borges é especialista em Língua Portuguesa, jornalista, professora e palestrante. / leticia.textos@gmail.com

Língua e letra

Fofocas de condomínio

Cada grupo tem seu jeito de se comunicar | 05.03.15 - 17:46
Goiânia - A maneira com que as pessoas se comunicam em ambientes diversos é meu objeto de estudo mais querido. Às vezes tenho que tomar cuidado para não observar demais, sob o risco de ser acusada de “xereta”. Mas sempre é fascinante conhecer estilos de transmissão de mensagens.
 
Eu não vou falar sobre sotaque, nível cultural, linguagem falada, linguagem escrita. O que vou contar hoje tem mais a ver com o jeitinho das pessoas para se adaptar e absorver informações no dia a dia.
 
Vamos ao meu mais recente encantamento: há pouco tempo me mudei. No prédio onde eu morava havia 84 apartamentos e todo o serviço de portaria, limpeza e segurança era terceirizado. Sempre cumprimentei cordialmente todos os funcionários, mas a rotatividade não me permitia chamá-los pelo nome, como gostaria.
 
Com os vizinhos a relação também era superficial. Um bom dia no elevador e só. Entrei e sai do prédio sem saber o nome de ninguém. Se por acaso fosse preciso falar com o morador de outro apartamento, existia um interfone. Resolvia-se um problema de garagem ou correio sem nenhum contato pessoal. As informações gerais eram afixadas nos elevadores e, quando muito importantes, colocadas nos escaninhos.
 
 No primeiro dia de prédio novo, já percebi um “clima” diferente. O porteiro é o mesmo há 16 anos. Todos sabem seu nome e ele sabe o nome de todo mundo. Obviamente, sabe bem mais coisas que apenas o nome dos moradores. Ele me passou, oralmente, algumas informações sobre a rotina. E o síndico fez a mesma coisa, quando nos encontramos no elevador.
 
Há um zelador, muito extrovertido, que conserta tudo no prédio. E nos apartamentos. E não cobra nada de ninguém para prestar serviços extras. Isso é chocante para quem via “técnicos” cobrarem 50 reais para apertar um parafuso e resolver o vazamento da descarga. Ou cem reais para fazer um orçamento de parte hidráulica.
A auxiliar de serviços gerais é mulher do zelador. (Acho que não é nepotismo, é?). E a outra porteira é moradora do prédio. Tranquilamente eles fazem o serviço um do outro nos horários de almoço, lanche, ou se alguém precisa dar uma saidinha. Dá para perceber que construíram uma amizade.
 
Fiquei uns três dias ouvindo a frase “seja bem vinda” de vários moradores. As pessoas sentam na portaria para bater papo com vizinhos e funcionários. Há bastante calor humano. O salão de festas abriga um culto evangélico uma vez por mês. No meu prédio antigo, isso era proibido pelo regimento.
 
Quando comento essas diferenças, algumas pessoas não entendem o que eu vejo de tão extraordinário. Mas eu acho extraordinário. Cada prédio tem sua rotina, mas ela é construída pelos habitantes. Cada grupo cria a melhor forma para se entender e estabelecer uma convivência saudável. A comunicação pode até ter regras, mas também tem brechas. Eu me adapto facilmente. Adoro estar no meio dessa construção infinita.

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