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Sobre o Colunista

Othaniel Alcântara
Othaniel Alcântara

Othaniel Alcântara é professor de Música da Universidade Federal de Goiás (UFG). / othaniel.alcantara@gmail.com

Música Clássica

Poeta-músico

| 21.08.15 - 17:21
Goiânia - Na Grécia Antiga, acreditava-se na origem divina da música. De acordo com a mitologia grega, o deus da música é conhecido como Apolo (filho de Zeus e Leto) e dentre os primeiros intérpretes estavam os semideuses, como o seu próprio filho Orfeu. Para Jean-Pierre Vernant, em “Mito e Religião na Grécia Antiga”, tanto essa crença como os demais “saberes” tradicionais em relação à genealogia dos deuses e seus poderes, foi conservada na Grécia, por meio de narrativas orais, inicialmente, em cada lar, sobretudo pelas mulheres, ao mesmo tempo em que se aprendia a falar. Pouco depois, o mundo dos deuses passou a ser apresentado aos humanos, pelo canto dos poetas, agora já em público, ainda de forma oral, acompanhado por um instrumento; A partir de agora, vou falar um pouco mais sobre esses primeiros músicos (mortais) da cultura europeia, dentro do contexto histórico, ao qual estão inseridos.
 
As primeiras manifestações culturais gregas
É na Ilha de Creta que se encontram os teatros de pedra mais antigos da Europa. Tais construções foram, provavelmente, palco de diferentes manifestações esportivas e artísticas das civilizações minóica e miceniana, consideradas as mais antigas da Europa e pontos de partida da história grega. Na verdade, a segunda surgiu por volta de 1.500 a.C,  como resultado da fusão de elementos da cultura da primeira, que se originou na Ilha de Creta, com a cultura de um povo de origem indo-europeia, os aqueus. Esse grupo, que falava a mais antiga forma do grego, havia ocupado séculos antes, uma parte da Grécia continental, localizada na península balcânica. 
 
A Civilização miceniana dominou o mundo egeu, tanto economicamente quanto culturalmente, por aproximadamente 200 anos, período em que chegaram à região outros dois grupos, pertencentes ao mesmo grupo étnico dos aqueus: os jônios e os eólios. Por algum tempo, todos esses grupos se interagiram e, posteriormente, ficaram conhecidos como povos helenos. Muitos aspectos da cultura creto-micênica, como a devoção pelo atletismo, pelas artes, além da mitologia, foram conservados por muitos séculos. O personagem Minotauro, além dos deuses Zeus, Apolo, Hera, Hermes e Posêidon são dessa época. 
 
O poeta-músico
Os micenianos também são conhecidos pela famosa guerra que travaram contra os troianos da Ásia Menor (hoje parte da Turquia), em torno de 1.250 antes de Cristo. Relatos sobre esse conflito foram propagados na Grécia, inicialmente, pelos aedos,  poetas-músicos itinerantes da época. 
 
Num primeiro momento, esses artistas, alguns deles guerreiros, compunham e cantavam poemas de caráter épico (façanhas dos heróis, mitos etc.), quase que exclusivamente, em festas promovidas nos palácios pela parcela mais privilegiada da sociedade. Naquela época, as tribos eram governadas por uma heroica classe guerreira e os poetas-músicos eram os responsáveis pela legitimação das glórias dessa aristocracia. Importante dizer que os bardos, como também eram conhecidos, dependiam de sua memória auditiva, única forma de preservar o conhecimento em uma época anterior ao advento da escrita. Suas performances eram acompanhadas de um instrumento de corda (lira ou cítara) e, por vezes, complementadas pela atuação de dançarinos. Tempos depois, os aedos, bem como seus sucessores, os poetas líricos e os rapsodos, passam a se apresentar em outras cerimônias, em concursos e durante os conhecidos jogos gregos.
 
Voltemos ao contexto histórico. No transcurso do século XII, a civilização Micênica sucumbiu aos dórios, o último dos quatro povos indo-europeus a chegar às terras da Antiga Grécia, à época formada pela Ilha de Creta e a parte continental, chamada de Hélade. Tratava-se de um povo primitivo em tudo, exceto pelos armamentos. Para o historiador Edward Mcnall BURNS, foi uma catástrofe para o mundo grego, inaugurando um período conhecido por “Idade das Trevas” ou “Idade Média” grega, que durou até mais ou menos o ano 800 a.C.
 
Cabe aqui um pequeno desvio na ordem cronológica desse texto. A “Idade das Trevas” também é conhecida como “Período Homérico”, em alusão a Homero, que teria nascido e vivido, posteriormente, no século VIII a.C. Pouco sabemos sobre a vida desse poeta. Na verdade, existem dúvidas sobre sua existência. Mas, de qualquer forma, se Homero realmente existiu, muito possivelmente foi um aedo. Credita-se a ele a autoria de coletâneas de poemas transmitidos, oralmente, pelos seus antecessores. Em dois desses trabalhos, Ilíada e Odisseia, encontramos referências a alguns desses respeitados profissionais; um deles, inclusive, teria sido alguém do convívio de Agamêmnon, rei de Micenas durante a citada Guerra de Troia.
 
Retomando a ordem cronológica dos fatos, logo após a conquista dos dórios, grande parte da população foi forçada a fugir para outras regiões, levando a lembrança de Micenas, de sua cultura, seus mitos, suas lendas e seus heróis. Assim surgiram as colônias gregas nas regiões litorâneas da Ásia Menor e pequenas ilhas espalhadas pelo Mar Egeu, evento conhecido como a “Primeira Diáspora Grega”.
 
É verdade que após “Primeira Diáspora Grega”, características da cultura helênica sobreviveram nas tradições religiosas e na literatura (oral) por séculos, mas também é certo que sofreu influências externas. Para musicólogo Roland de CANDÉ, a música grega desse período foi enriquecida pelas contribuições dos povos da Ásia Menor (frígios e lídios) e talvez tenham também sofrido influências egípcias, fenícia e assírio-babilônica (Mesopotâmia), para, alguns séculos depois, ser reimportada para a Grécia, já na fase do renascimento do século VIII a.C. 
 
As Musas
O poeta-músico possuía muito prestígio na sociedade grega. Talvez, pela a crença de que tais profissionais compunham seus versos sob a inspiração divina, aspecto que assegurava credibilidade para suas palavras diante de seu público. Na realidade, para os helenos, a criação poética não era aprendida, mas concebida. Foi Hesíodo, em sua obra “Teogonia”, o primeiro a escrever sobre esse assunto. Nesse trabalho, o poeta que viveu no século VIII a.C. descreve a criação do mundo e apresenta, de forma cronológica, todas as gerações de deuses da Antiga Grécia. Nesse ambiente, encontrava-se Apolo e as Musas, estas relacionadas com o fazer poético, as inspiradoras dos aedos, desde os tempos mais remotos. Mas quem eram as Musas? As nove filhas de Mnemosýne, deusa que personificava a memória, com o poderoso Zeus. São elas: Calíope (poesia épica), Clio (história), Érato (poesia romântica), Euterpe (música), Melpômene (tragédia), Polímnia (hinos), Terpsícore (dança), Tália (comédia) e Urânia (astronomia). 
 
Segundo Hesíodo, cabia às Musas a tarefa de alegrar o coração de Zeus e demais divindades do panteão, cantando o presente, o passado e o futuro, sempre acompanhadas pela lira de Apolo. Além disso, também desciam à terra quando invocadas, para auxiliar a criação poética que exaltava os feitos dos deuses, dos heróis do passado ou dos guerreiros da época em eram cantados. 
 
O legado dos aedos
Embora entreter fosse a função primordial do ofício do aedo na sociedade retratada por Homero (em Ilíada e Odisseia), o canto poderia provocar efeitos contraditórios, como tristeza, euforia, etc. Além disso, naturalmente, assumiu a funções de preservação dos costumes, das tradições religiosas, além da função educativa. A atividade literária, a partir do recurso da escrita (final da “Idade das Trevas”), conservou essa tradição antiga, transmitida pela poesia oral. As narrativas de Homero e Hesíodo, sobre mitos e heróis, transformaram-se em referência para seus sucessores (poetas líricos e rapsodos). 
 
No período Arcaico, entre 700 e 500 a.C., a poesia grega atingiu o seu ápice e sofreu várias transformações, entretanto, continuou a influenciar a sociedade grega dos períodos posteriores. Tornou-se objeto de reflexão dos filósofos do Período Clássico e, mais precisamente, a base do modelo platônico para a educação da sociedade grega clássica, a partir do século V antes de Cristo.
 

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