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Wolney Unes
Wolney Unes

Professor da Universidade Federal de Goiás / outradoportugues@gmail.com

Outra do português

Um golpe no idioma

| 20.04.16 - 15:38
 
Goiânia - Stella é minha amiga há uns 30 anos. Talvez 40. Menina linda, é mesmo a inteligência que chama a atenção. E foi essa inteligência que me fez aprender a respeitar e admirar a amiga. Além, é claro da luz e do brilho próprio que exala todo tempo. Aposentou-se no início do ano.
 
Pois nesses dias que correm, Facebook bombando, Stella cismou de falar de um tal golpe político que teria tido lugar em nosso País. Perguntei-lhe – não sem certo cinismo, é claro! – de que golpe se tratava. Stella, moça inteligente mas sempre bem-humorada, dando um golpe no meu cinismo, me respondeu que falava do "golpe de Estado" ocorrido na Câmara dos Deputados. Cinismo à parte, o que é afinal "golpe de Estado"?
 
Stella e eu somos de uma geração que aprendeu a falar disso como "coup d´Etat". Nossa turma mais do outro lado da Cortina de Ferro também usava a forma alemã "putsch". Apesar de ambas as expressões serem relativamente recentes, da época da Revolução Francesa, o artifício é já velho conhecido. Um dos coups mais conhecidos foi contra César, na República romana, capitaneado por seu próprio filho, ao passo que o mesmo César por sua vez havia assumido por conta de um golpe alguns anos antes. Calígula, Cromwell, Guilherme de Orange, entre outros, protagonizaram golpes que marcaram a história. Aprendemos na escola sobre o 18 do Brumário, que sagrou Napoleão.
 
Alguns golpes resultaram em mudanças positivas para a história ocidental, outros desencadearam retrocesso. Mas uma coisa todo golpe de Estado teve em comum: foram sempre armados na surdina.
 
E aqui começa com dor no coração meu desentendimento com Stella. Os acontecimentos dos últimos meses no Brasil foram armados às claras, sempre publicamente e entre os três Poderes: a Câmara mandava uma petição para o Supremo, que chamava o Executivo, que interferia no Senado, e por aí afora. Nós, simples espectadores, podíamos acompanhar tudo pela TV – é claro que cada emissora com o viés de seus interesses! Num dado momento, fomos para as ruas, posicionarmo-nos a favor de um ou outro lado. Mas sempre à luz do sol.
 
Nosso suposto putsch foi conduzido às claras, seguindo regras já existentes – e experimentadas aqui mesmo já alguns anos antes! A cada passo, discutiam-se procedimentos, todos os envolvidos sabiam de tudo com antecedência. Por isso mesmo, como dizer que no Brasil de 2016 há um putsch em curso? Ou que vivemos um coup d´Etat. Se combinarmos que vamos chamar de golpe, então que reescrevamos os dicionários.
 
Paro por aqui. Minha amiga linda e inteligente pode ficar chateada com os resultados da política; eu também já me chateei com outros resultados, quando Lula perdeu para Collor, por exemplo. Mas o que minha amiga não pode é submeter seu brilho, sua luz a um mantra usado como estratégia política para cooptar espectadores, à dobra do idioma e de suas palavras para justificarmos a política. Stella, conte comigo, não vai ter coup d´Etat nem putsch no Brasil! Já sobre essa história de "golpe" – agora sem qualquer cinismo –, não posso opinar. Já não sei bem o que significa "golpe" por aqui.

Comentários

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  • 21.04.2016 17:37 odessa martins arruda florencio

    Continue escrevendo Wolney,você tem um jeito de escrever delicioso de ler. E além do mais isso aí é uma verdade. Onde já se viu o Supremo Tribunal Federal aplicar um golpe de Estado? E parece que ela vai continuar batendo nessa tecla na ONU. Imagine só.

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