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"Patrimônio cultural é tratado como luxo", diz pesquisador de Art Déco

Áureo Rosa participa do Cidade Invisível | 24.10.17 - 09:28 "Patrimônio cultural é tratado como luxo", diz pesquisador de Art Déco (Foto: divulgação)

Yuri Lopes 

Goiânia - Principal referência arquitetônica da construção de Goiânia, o Art Déco ainda é um assunto desconhecido de grande parte dos habitantes da capital goiana, por falta de iniciativas que insiram o tema nas escolas do município, ou ainda por simples falta de interesse do cidadão goianiense. 

Com o objetivo de promover o mapeamento, a preservação e a contextualização do patrimônio de Art Déco em Goiânia, o coletivo Sobreurbana comanda o projeto Cidades Invisíveis, que reúne pessoas das mais variadas áreas de atuação para a realização de ações voltadas para estes três pilares. 

Artista plástico e estudante de Arquitetura e Urbanismo, na Universidade Estadual de Goiás (UEG), Áureo Rosa é um dos integrantes do Sobreurbana e falou com o jornal A Redação sobre a importância do movimento Art Déco na criação de Goiânia e das comparações com outras cidades com influência deste estilo, como Chicago, Nova York e Miami, todas nos Estados Unidos. 

Para Áureo, o descaso com o acervo Art Déco em Goiânia é antigo e é culpa de governantes que não criam mecanismos rígidos de preservação deste patrimônio. Também citou a população, que pouco se movimenta em atividades que garantam a manutenção das características que identificam este movimento cultural. "Patrimônios culturais quase sempre são encarados como luxo em relação às outras demandas", declara Áureo, na entrevista que você confere a seguir.

A Redação: Quais pesquisas ou trabalhos você já realizou abordando o Art Déco em Goiânia? 

Áureo Rosa: O Cidade Invisível foi o primeiro projeto que abrange o Art Déco de forma direta que me envolvi, tanto dentro da universidade quanto no profissional. Em Goiânia, de modo geral, há uma cultura já estabelecida de que existe o Déco e ele é importante, mas pouquíssimas ações ligadas à preservação, mapeamento e contextualização são realizadas. O Cidade Invisível tem esse nome bastante pertinente, por falar de temas que muitas vezes todos sabem da existência, mas são pouco palpáveis e visíveis, como o Déco, a arte urbana, e outros aspectos que ainda não possuem uma base de mapeamento digital sólida para auxiliar outras ações. 

Desde que começou a ter contato acadêmico com este assunto, você percebe que houve um avanço ou um retrocesso por parte do poder público em relação à preservação do patrimônio histórico da capital?

Em relação à preservação do patrimônio, Goiânia ainda possui uma visão muito limitada sobre o assunto. Assim como a cultura, os patrimônios materiais e imateriais, quase sempre são encarados como um luxo em relação à outras demandas, e isso gera uma certa falta de entendimento e descrédito pelas próximas gerações. No Cerrado, de forma geral, entendo que a cultura oral é muitas vezes mais forte e difundida do que a cultura da imagem e do palpável, talvez por esse motivo, falta uma sensibilidade maior com o Déco, por exemplo, já que a princípio, quem detém o poder da preservação e difusão, dificilmente entende a necessidade daquele objeto existir.

Muitos prédios na cidade escondem as fachadas com traços do Art Déco com letreiros de propaganda das empresas. Como você avalia esta prática?  

No Centro é muito comum as fachadas Déco serem tapadas por letreiros e propagandas. Existe nesse caso a falta de sensibilidade com o patrimônio, no caso dos proprietários (principalmente na Avenida Goiás e Anhanguera), mas a prefeitura sequer coloca esse problema como pauta. Não vejo campanhas ou pressões pelos órgãos de preservação, para que esse problema seja discutido, ainda é uma discussão bem elitizada do ponto de vista cultural. No caso, acredito que a culpa é muito mais de quem sabe da importância da preservação, e detém poder e mecanismos para dificultar que o patrimônio desapareça, do que os empresários que querem demolir ou tapar esses edifícios. Acaba que a preservação se resume à boa vontade de quem detém o edifício, e em urbanismo sabemos que não existe a boa vontade dos empresários para com a cultura.

A partir das suas pesquisas, houve alguma época com regras mais rígidas que contribuíram para a preservação do patrimônio Art Déco em Goiânia?

Nunca existiram regras claras e específicas do município para a preservação. Existem os processos de tombamento em diferentes níveis de gestão, e o órgão de preservação principal presente em Goiânia, o Instituto do Patrimônio Histórico e Artísticos Nacional (Iphan). Alguns prefeitos já executaram alguns projetos de revitalização, o último eu acredito que tenha sido o feito pelo Pedro Wilson (PT), na Avenida Goiás, mas efetivamente, alguém que abrace a ideia da limpeza das fachadas, retiradas dos letreiros imensos e ainda promova um debate com a arte urbana e intervenção, ninguém realizou do ponto de vista de legislação.

Quais as principais características que permitem identificar uma referência do Art Déco?

O Déco é um estilo europeu, muito difundido entre os anos 1920 e 1930, ou seja, na época em que se iniciava a construção de Goiânia, e era o estilo em alta na arquitetura. Entendo o estilo como um modo de construir imagens, ou seja, o Déco não seria somente aquilo que é edificado como arquitetura, é um estilo construtivo que pode resultar em qualquer coisa visível, como cartazes, mobiliários, objetos ou carros. O Déco acaba sendo essencialmente algo para ser visto do que necessariamente espacial. O ar de monumentalismo, as referências industriais com as linhas retas e simetria, os elementos geométricos bem definidos e a paleta de cores mais usual, são as principais identificações do que seria o estilo, mas ainda acredito que a imagem final do objeto é o que mais pontua para a classificação, desde o Cristo Redentor, no Rio de Janeiro, até os carros alemães dos anos 1920 e 1930.

Além do Centro e da região de Campinas, onde mais é possível encontrar obras com traços desse estilo arquitetônico?

A região expandida do Centro, abrigando o Setor Sul e alguns pontos de fronteira com outros bairros são os locais mais usuais, principalmente pela forma de construção da cidade, que se expandiu com o passar dos anos e o estilo foi deixado de lado no momento de criação de outros bairros. Por conta disso é praticamente impossível ver uma construção Déco em um bairro como o Setor Bueno e Novo Mundo, por exemplo, já que são bairros mais jovens. No próprio Centro, é possível ver esse contraste, de construções contemporâneas e o Decó com outros estilos modernos, já que a cidade foi se completando com o tempo.

Abordar a história de Goiânia nas escolas públicas da capital não seria uma forma de apresentar este tema tão importante para a história da capital?

De fato, eu mesmo só conheci e estudei a história de Goiânia na íntegra quando entrei na faculdade de arquitetura. Mas tenho receio que uma imposição acabe gerando uma impressão estéril da cidade. No caso daqui, uma cidade construída do zero, com dezenas de figuras históricas muito controversas, acho que o assunto não deve ser tratado como uma disciplina, mas como uma contextualização. A história de Goiânia ainda apresenta pontos muito nebulosos que são pouco discutidos, justamente por não serem apresentados desde a infância. O acidente do Césio 137, por exemplo, acabou de completar 30 anos e pouquíssimas produções culturais são feitas sobre o assunto. Algo tão marcante deveria ter uma importância muito maior do que parece que tem. E isso é de modo geral. Fatos históricos e patrimônios ainda parecem efêmeros por aqui.

Miami também tem um enorme acervo de construções no estilo Art Déco. Quais as semelhanças e diferenças entre as duas cidades quando o assunto é Art Déco?

Os Estados Unidos possuem um grande acervo Déco. Miami possui um estilo mais próximo de Goiânia do que Nova York e Chicago, por exemplo. Em Nova York os materiais industriais e os ornamentos são mais aparentes do que em Miami, onde as linhas marcantes dos edifícios são mais comportadas como aqui. Em Goiânia e Miami, é mais fácil um edifício Déco passar mais desapercebido do que em Nova York e Chicago, por exemplo.

O Empire States Building e o Cristo Redentor são dois exemplos de pontos turísticos construídos no estilo Art Déco. Você poderia citar outros lugares que possuem a mesma característica?

O Monumento Às Bandeiras, de Vítor Becheret em São Paulo (SP); o Elevador Lacerda em Salvador (BA); o Viaduto do Chá, também em São Paulo; e a própria estação rodoviária de Goiânia. Acho que são obras brasileiras e muito representativas do Decó. Junto com algumas estações de metrô de Paris são os melhores exemplos para conhecer o estilo.

O que você tem a dizer sobre o pouco conhecimento que o goianiense têm sobre os aspectos históricos de sua cidade?

A cultura histórica é o que dá a base de permanência das gerações futuras na cidade, o conhecimento da própria história e dos elementos que ela possui, é um ponto fundamental para a evolução da cidadania. Uma cultura frágil, sem registros, discussões e contextualização, tende a desaparecer muito facilmente. Mas esse desconhecimento geral não pode ser uma crítica somente a quem desconhece. Essas pessoas precisam se sentir incentivadas a trabalhar e se inserir na própria história, por isso é tão fundamental a atuação e uma maior amplitude do meio cultural e de preservação, afinal, quem tem o conhecimento, precisa trabalhá-lo para quem não tem.

 


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