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Cássia Fernandes

A difícil despedida nos tempos da Web

Rompimentos eram mais fáceis | 09.04.12 - 17:41

Há algum tempo, não tão afastado, rompimentos e despedidas eram bem mais fáceis de proceder. Quando as histórias entre namorados alcançavam seus chorosos términos, bastava rasgar bilhetes e cartas escritos em folhas de caderno, picotar ou devolver as fotos trocadas com versos e dedicatórias apaixonadas no verso, na obstinação terrível de, destruindo a matéria, eliminar a memória do objeto amado. Era suficiente embalar tudo numa caixa de sapatos: os presentes, os papéis de sonho de valsa, o sonho da valsa de casamento, os tickets de cinema, os anéis de compromisso, os segredos, os poemas. “Tome, que tudo lhe devolvo. Entre nós, nunca nada houve.”

Se um dos dois, inconformado, continuasse a enviar cartas, bastava mandar devolvê-las ao remetente, ou solenemente ignorá-las, queimá-las, resistindo heroicamente à curiosidade de violar-lhes o  lacre, de ler arrependimentos, apelos de volta e um sem fim de lamentos. Se o inconformado, ainda mais torturado em seu inconformismo e saudade, quisesse por qualquer forma rever seu objeto, o jeito era espreitá-lo encostado num portão, à saída da escola ou do trabalho, atrás de um poste, escorado a um muro na escuridão e no anonimato dos mal-amados.

Mas isso se constituía em certa humilhação e dificuldade, esta última sobretudo se os ex-namorados não habitassem a mesma cidade. E que trabalho daria o deslocamento. Podia-se ainda ser flagrado e que vergonha se o vissem arrastar as calças no cimento das calçadas! Então, procedia-se ligeiro ao esquecimento, pois o que não é visto, não é lembrado. E o aquecimento do coração necessita, se não da visão distante de uma face, do perfume do leite ou da água de colônia derramados ao lençol, ao lenço e aos papéis de carta. Estava feito o sepultamento.

A internet, porém, nos roubou o direito ou a facilidade do esquecimento. Não obstante a oferta abundante de perfis, de rostos, de possibilidades, apesar da velocidade vertiginosa com que a fila anda no louco mundo globalizado, a ruptura tornou-se mais custosa e demorada. Já não há fotos ou cartas a serem rasgadas, mas há por outro lado uma infinidade de arquivos que precisam ser deletados do disco rígido do computador, imagens que exigem ser arrancadas da área de trabalho, telas de proteção das quais é imperioso proteger-se eliminando-as, dezenas ou centenas de mensagens a serem excluídas das caixas de e-mail, e até lixeiras a serem esvaziadas.

Tudo isso porque o amor contemporâneo é pródigo em comunicações. Apressado, econômico em adjetivos e caracteres, e paradoxalmente verborrágico, não tem prazos a respeitar, como o tempo para a entrega de uma carta pelos correios. É ansioso, instantâneo, imediato. Casais que há pouco tempo se conhecem, trocam dezenas, quiçá centenas de mensagens diárias. Bendita ou maldita conectividade!  Então, é preciso excluir o ex-amor de seus contatos do MSN, é preciso bani-lo de sua relação de amigos nas redes sociais, no Facebook, no Twitter.

E depois que tudo é isso é feito – ufa! – enquanto se procede à faxina, é inevitável rever cada foto, cada comentário, cada “curtir” – resta ainda, para os anacrônicos românticos principalmente, resistir à tentação de não espiar o perfil do ex ou da ex, se ele não tiver a generosidade (ou a crueldade?) de bloqueá-lo ao seu acesso. Eliminou-se a necessidade de dirigir-se às escondidas à porta do trabalho ou da escola. Pode-se vigiar daqui mesmo, com um simples clique, o rosto colado à tela do computador, como quem espia pelo buraco da fechadura.  Pode-se seguir seu paradeiro pelo Twitter, rastrear seus passos pelo Google.

Sim, há que se resistir à tentação diária de escarafunchar, de arrancar a casca da ferida, de acompanhar seus dias, suas tristezas e alegrias, suas últimas conquistas. A Web é terreno propício para a indiscrição e o masoquismo.  E quanto mais se procura, mais se acha. E como lidar com o desejo algo sádico, algo mórbido, de postar em seu próprio perfil no Facebook mensagens mais ou menos cifradas de arrependimento ou saudade,  desesperados pedidos de perdão e reconciliação, indiretas e carapuças endereçadas?  E canções que eram códigos amorosos, lembranças só pelos dois compartilhadas? “Meu paletó enlaça o teu vestido e o meu sapato ainda pisa no teu”. “Quando você me quiser rever, já vai me encontrar refeita”.

Como realmente sepultar um ex-amor nesse mundo em que todos permanecem vivos e bem à vista? Como dizer um adeus definitivo nesse universo em que todas as pessoas deixam o tempo todo pistas de si mesmas e de seus precários amores no grande aquário? Se você alguma vez  existiu e amou neste mundo, haverá algum registro disso em algum lugar da Web, armazenado talvez até em alguma “nuvem”.  Não há mais onde enterrar o passado.  É preciso aprender a conviver com os mortos, fingindo não vê-los, com resignação e civilidade. Sim, o bilhete de volta agora é bem mais caro que o de ida.

Parodiando Camões:
 
Para tão breve amor,
 é tão longa a vida.
 Para tão finito amor,
 é tão infinita a tela do computador
 e dos iPads e dos iPhones,
onde há todo instante se pode ler
um rosto
e um nome.

Cássia Fernandes é jornalista e escritora

Comentários

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  • 14.06.2012 09:18 aZCvzILxtSvFkUSrgip

    Je1, no mamen, los culpables siegun libres y la comunidad quiere crucificar al payaso, les aseguro que la mayoreda de los que criticaban el chiste, el jueves pasado ni se acordaban de caso abc, lo mismo sucede con la hambruna en la sierra tarahumara. Sef1ores en las redes sociales somos muy doble cara o acaso no recuerdan el tt #michachatienetwitter?.

  • 20.04.2012 07:36 Rodrigo Alves

    Oi. Gostei muito de ver esse text publicado. Quero mais.

  • 18.04.2012 10:08 Lígia Soares

    Os esqueletos não ficam mais no armário, mas são expostos o tempo todo. E, como bons masoquistas que somos, humanos, espreitamos em todos os cantos do mundo virtual a nova vida maravilhosa que se descortina para o outro (sempre ele) a cada término/despedida. Afinal, nem mesmo nós somos capazes de escapar da incontrolável vontade de publicar/postar/curtir as melhores coisas do mundo, forjando uma recuperação instantânea ao fim de um relacionamento. Inventamos uma felicidade retumbante, plástica e falsificada, mesmo que tenhamos que recolher nossos cacos e enxugar os olhos e curar nossa angústia dezenas de vezes. Prolongamos o sofrimento baseados na idealização divulgada. O que importa, no fim, nunca é exposto, nossas feridas por mais superficiais que sejam, continuam reservadas ao mundo de carne e osso.

  • 10.04.2012 03:39 CELSO MORAES

    Um texto tão bem escrito quanto realista, e sei disso por experiência própria, pessoal e intransferível. O primeiro perfil do Facebook mais visitado por mim só é o meu porque é nele que adentro ao penetrar nessa rede virtual: o segundo mais visitado é o de alguém que eu nem deveria visitar, mas faço-o sempre, convivendo com um cadáver sentimental que recuso a enterrar. Daí a minha identificação com as palavras da minha bela amiga. Uma leitura gratificante!

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