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Alexandre Parrode

Beijo gay é coisa do passado

Novela Amor à Vida quebra tabus | 11.06.13 - 12:10
 
Goiânia - Com pouco tempo no ar, a nova novela das nove da Rede Globo, Amor à Vida, já caiu no gosto do mundo on-line. Apesar de ter aglutinado média de 36 - não tão impressionantes - pontos no Ibobe, o grande feito da trama de Walcyr Carrasco é outro.
 
Seguindo a destemperada "Salve Jorge", Amor à Vida traz à televisão brasileira um tema que não é nada novo: a homossexualidade. No entanto, a maneira como os gays são abordados é que chama atenção. De um lado, a "bicha má" Félix (interpretada maestricamente por Mateus Solano) e, do outro, o casal homossexual fofinho Eron (Marcelo Anthony) e Niko (Thiago Fragoso).
 
Ambos núcleos mostram realidades jamais apresentadas. Primeiro, o casamento gay. Tema que não podia estar mais atual no Brasil (e no mundo). Eron e Niko - relevando as afetações forçadas e, muitas vezes, desnecessários do último - formam a tão contemporânea família moderna. Dois homens, que vivem juntos, usam alianças, compartilham suas histórias, bem como os problemas e alegrias da vida. E tem mais: querem e vão adotar uma criança. Esta que, inclusive vai gerar mais polêmica, pois será gerada pela amiga de Niko, Amarylis (Danielle Winits).
 
O segundo dispensa comentários. Confesso que quando li, pela primeira vez, a trama e o papel "Félix" não acreditei que Mateus Solano fosse dar conta do recado. Ora, dar vida a um gay enrustido, totalmente maléfico, sarcástico, mau, desonesto, sádico e tinhoso não é para qualquer um. Na verdade, à época, nenhum ator brasileiro me veio à cabeça para tanto. Acho que nem eu, que sou gay, conseguiria tal feito sem exagerar na medida. 
 
E é neste ponto que Amor à Vida e o autor Walcyr Carrasco acertaram em cheio. Félix é tão divertido, nonsense e chocante que... Não choca! Isso mesmo. Por ser tão natural, leve e envolvente, a atuação de Mateus Solano, em vez de abismar (que era o esperado devido ao teor do tema), encanta. Félix tem as melhores sacadas, as piadas sem-graça mais divertidas e trejeitos mais naturais que o próprio Niko, a, como diriam as próprias bichas, "passiva amorosa que faz a linha apaixonada". Não me admira que Félix seja o grande destaque.
 
No Facebook e no Twitter, o personagem virou meme e é a mais nova febre da internet. Dezenas de páginas e perfis dedicados a ele listam as incontáveis pérolas do "gay que deu só uma espiadinha para fora do armário, mas que já trancou a porta de novo e jogou a chave fora". Félix já foi coroado a nova Carminha (personagem histórica de Adriana Esteves em Avenida Brasil).  
 
Bingo de novo para o folhetim. Em pleno horário nobre, fala-se em "ai que uó", "sair do armário", "boy magia", "mona" e quantos mais vocábulos homossexuais. Pela primeira vez, o "ser gay" deixa de ser o enredo principal e passa a ser um mero figurante. Com certeza, as pessoas amam/odeiam Félix não porque ele é gay, mas porque ele é mau. Independente da opção sexual, o que deixa as pessoas com raiva (e tão envolvidas) é a desonestidade, as cachorradas e as maldades que o personagem faz. Não a opção sexual. 

Claro que nem tudo é um "mar de rosas". O casal Niko e Eron divide a opinião dos telespectadores. Muita gente acha um absurdo que os dois tenham um filho e até as cenas de afeto entre eles incomodam. Mas isso também é válido. Incomodar é preciso. Só pelo burburinho e pelos embates que esta realidade gera, Amor à Vida ganha ainda mais reconhecimento. 
 
O importante é que, por todo o Brasil, mães, pais, avós, avôs, evangélicos, católicos, negros, brancos, gays e héteros assistem, comentam e, consequentemente, ponderam sobre a nova realidade que está, muitas vezes, dentro de suas próprias casas. Mas que, infelizmente, eles ainda insistem em não acreditar. 
 
Ah! Vale ressaltar que o autor afirmou que "está na hora de um beijo gay na televisão brasileira" e que, finalmente, desta vez vai mesmo ser exibido. Mas, quer saber? "Pelas contas do Rosário": o que é um beijo gay perto de todo o "bafão" que a "bicha má" Félix está causando? 

*Alexandre Parrode é jornalista e colunista do jornal A Redação.
 

Comentários

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  • 30.06.2013 21:46 Alexandre Pinheiro

    É excelente a iniciativa abordada por Walcyr Carrasco no folhetim das "09hs", pois é a realidade social e aqui bem ressaltado muitas vezes dentro de nossos lares! Seria muito clichê se houvesse apenas mais um personagem gay em algum núcleo para fazer apenas piadinhas ou então "obrar" na cara da sociedade. Um antagonista como Félix e o casal Niko e Eron representam nós homossexuais de forma antes nunca vista escrachadamente! Xará, parabéns pelo texto....

  • 21.06.2013 12:28 Rosane Lousa

    Parabéns pelo texto! Claro e verdadeiro.

  • 19.06.2013 17:16 Regina Andrade Tannus Seabra

    Parabéns pelo artigo. O recado foi dado com elegância e sensibilidade. Regina

  • 12.06.2013 10:27 Arlete Dias

    Excelente a sua definição do personagem Félix. Acho impressionante a forma como ele consegue nos provocar asco e riso ao mesmo tempo. Quanto ao tema abordado, sabemos que o preconceito é imenso, daí, a tv como mecanismo que consegue falar várias linguagens ao mesmo tempo, pode ajudar a quebrá-lo, se não tanto, levar muita gente à reflexão. Amei o seu texto... de uma leveza só. Tenho certeza de que se tivesse sido um artigo longo, eu o teria lido com o mesmo prazer.

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