Pela 5ª vez o mais influente da web em Goiás. Confira nossos prêmios.

Adriano Naves Brito

Uma escolha a mais?

Viver ou não viver? | 05.07.11 - 13:03

 

A vida é feita de escolhas. Certo? Antes de concordar em movimento quase involuntário (isso mesmo, não inteiramente decidido por você, mas por uma rotina cerebral inúmeras vezes reforçada), tome fôlego e refreie o impulso. 
 
Não, não se impressione se se der conta que já tinha respondido antes de ter começado a próxima frase. Não é fácil suspender o juízo em casos como este. Nossas rotinas neurais são ferramentas poderosas no trato cotidiano com o mundo; felizmente! Imagine ter de decidir tudo como se fosse a primeira vez? Imagine fazer todas as escolhas que definem nossos dias e, no fim das contas, a nós mesmos? Imagine sermos livres como pressupõe o clichê edificante com que abri este texto? Melhor que não seja assim, melhor sermos guiados, melhor não precisarmos decidir tanto. Certo? 
 
Entendo, essa é pergunta menos óbvia. Você hesita. E dirá, está bem, mas somos donos de nossas ações e destino, e emendará retoricamente, certo? Refreie! 
 
Penso na rotina dos outros animais sociais complexos, animais de espécies com indivíduos com sistema nervoso desenvolvido o suficiente para serem capazes de tomar decisões com relativa autonomia, como nós, e fico a imaginar suas pequenas angústias. Observo Phoebe, minha gata (ando muito ligado a ela nesses dias), e fantasio suas cogitações: abater a mariposa agora ou brincar com ela mais um pouco? Tomar água em que pia da casa? O disco rígido ou o colo, onde será melhor dormir nessa tarde chuvosa e fria? Nossas escolhas também já foram mais simples. Também já fomos menos atordoados com decisões a tomar e foi nesse tempo que nossas habilidades de construir rotinas neurais deliberativas foram forjadas.
 
Para nós faz tempo que foi assim, pois somos seres de vidas curtas (bem, veremos!). Para a natureza, para quem as dimensões de tempo são outras, foi há pouco. Ela levou, contudo, um tempo imponderável para nós (que diferença podemos sentir entre 1 e 100 milhões de anos?) montando o quebra-cabeças de nossos sistemas decisórios. Eles são baseados em rotinas simples, mas sua flexibilidade é tão extraordinária que esses sistemas serviram às comunidades de caçadores e coletores que fomos por milhares de anos antes de plantarmos o primeiro pé de trigo, assim como servem a nós, caçadores e coletores que ainda somos, nas imensas cidades que construímos graças à agricultura. Têm, porém, esses sistemas, limites e eles são cada vez mais amplos, como são maiores as nossas angústias por termos de decidir cada vez sobre mais âmbitos de nossa existência e, no extremo, o que me trouxe a essa conversa, sobre ela própria, nossa existência.
 
Os fatos são aparentemente paradoxais, mas se encaixam, afinal de contas. Nossas vidas são mesmo feitas de escolhas, mas, decidimos muito menos do que imaginamos, muito menos. E gostamos disso! Gostamos da ilusão de decidirmos, de escolhermos o que já escolhemos centenas de outras vezes (variações ínfimas dos mesmos sabores, cores, objetos, pessoas). No entanto, estamos sendo levados às vascas com o alargamento dos âmbitos decisórios. 
 
Ouvi, esses dias, que rejuvenesceram ratos num laboratório americano e que, em quarenta anos, teremos vencido a doença da morte natural (será, então, apenas “natural”). Não duvido. Em um sentido relevante, já a estamos vencendo, pois ela está entrando aos poucos em nosso âmbito de decisão, e de angústia. Viver ou não viver? Deixar ou não deixar morrer? Nada nos preparou para decidirmos isso e vê-se, quanto mais a questão se nos é imposta, que o melhor é, de fato, não termos o destino nas mãos. Não nos dão escolha, porém, e, a contrassenso, vamos sendo obrigados a ter mais uma.
 
Adriano Naves de Brito 
Professor de filosofia na Universidade do Vale dos Sinos (RS)

Comentários

Clique aqui para comentar
Nome: E-mail: Mensagem:
Envie sua sugestão de pauta, foto e vídeo
62 9.9850 - 6351