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João Novaes

Três filmes brilhantes de 2014

Filmes que merecem atenção | 19.01.15 - 11:54   
Goiânia - Na semana passada tratei aqui neste espaço dos três filmes que mais me decepcionaram em 2014 . Hoje falarei de outros três que encheram meus olhos e trouxeram de volta a atmosfera mística que só a sala escura do cinema, o som do projetor e a luz tênue sobre a tela são capazes de produzir sobre nós. “Relatos selvagens” do diretor Damián Szifron que acaba de ser indicado ao Oscar de filme estrangeiro,  “Interestelar” magistralmente conduzido por Cristopher Nolan e “ O Grande lance”, do mestre Giusepe Tornatore .
           
O filme de Tornatore, sua primeira ficção produzida fora da Itália é uma grande fábula que tece uma fina troça sobre o mercado mundial de arte! O personagem de Geoffrey Rush é construído minuciosamente !Ele coleciona retratos e é um leiloeiro afetado de uma casa de leilões , um sujeito para quem o amor já não mais existe, um esnobe frio e distante das coisas mundanas cotidianas,  afeito à sutileza e à busca das formas perfeitas pintadas ao longo da história da arte. Mas o amor ou a ilusão e possibilidade deste sentimento povoarem novamente sua vida abalam seu império oculto  e escuso da beleza . Ele guarda um verdadeiro tesouro atrás de uma parede falsa, acumulando belíssimos retratos obtidos com a ajuda de seu companheiro de tramoias, vivido por Donald Sutherland! Poucas coisas podem ser tão boas como um filme sobre roubo de arte. Sempre fui fascinado pelo gênero e o filme de Tornatore parece refletir um pouco o clima de “Afogando em números” de Peter Greenaway.
           
Já “Interestelar”  parece ter consolidado ainda mais a já bem sucedida carreira de Nolan, além de continuar alguns temas que ele já havia trabalhado em “A origem” . Quando Matthew Mcconaughey finalmente atinge a 5a dimensão em “Interestelar”, entra em um ambiente visualmente parecido com o que Leonardo Dicaprio habita em sua mente e seus sonhos  em “A origem”.  E o mais curioso é que o roteiro do longa foi feito por seu irmão, Jonathan Nolan, que havia tentado durante anos produzir o filme sem a ajuda familiar, mas só pode finalmente ver suas palavras traduzidas em ações dramáticas com o auxílio de Cristopher.  E apesar das quase três horas de duração o filme prende a atenção e deslumbra com sua concepção visual. Parecida com a de 2001 – uma odisseia no Espaço “e suas diversas referencias e reverências a momentos marcantes do cinema . A cena final particularmente homenageia a série Star Wars e ao ver Matthew entrando em sua nave junto com seu robô (Tars), parece que estamos vendo Luke e R2D2 partindo rumo a uma nova batalha ! Depois de “Interestelar” não consigo mais ir ao caixa eletrônico sem chamá-lo de TARS.  O filme leva a questionamentos profundos sobre a história de exploração espacial construída pela humanidade ao longo do século XX. E acaba funcionando quase como uma ótima peça publicitária da própria NASA, quando no início do longa Matthew questiona a professora da escola de sua filha se ela realmente acredita que o homem não chegou à lua. A cena em que ele junto com seus filhos consegue controlar um drone que está perdido no espaço, como uma borboleta sem rumo é de uma beleza única ! E pelo final, podemos imaginar que “Interestelar 2”vem por aí.
           
Já “Relatos selvagens” é um dos filmes mais brilhantes que já vi. Um roteiro original como poucos, de uma brutalidade e sutileza concomitantes, algo difícil de se conciliar! Filmes que são compostos de pequenas histórias , no melhor estilo “Shortcuts ”, quase sempre são bons, pois oferecem ao espectador a chance de se identificar com a história de mais de uma maneira. A história inicial no avião, em que todos os passageiros foram colocados ali por um comissário de bordo maluco que nem mesmo aparece é absolutamente genial. Mas não menos inteligente e bem construída que a de “Bombita”, o personagem de Ricardo Dárin que se revolta contra a companhia de transito municipal de Buenos Aires que insiste em guinchar seu carro para gerar multas. A vontade de “Bombita” de explodir a burocracia e a malandragem do Estado para gerar receitas é bem comum e não há como não pensar nela com todos os problemas que passamos cotidianamente em nossos Detrans.
 
Já a história da velha ex-prisioneira que só sonha em voltar para a cadeia para poder parar de trabalhar e acaba assassinando um politico corrupto para atingir seus objetivos, parece uma metáfora para cada um de nós brasileiros indignados e assolados por uma realidade política apodrecida .  E por fim, o episódio do casamento em que tudo e mais um pouco acontece injeta um nível de loucura e psicodelia a “Relatos selvagens” que o torna um filme que flerta com o surrealismo!  Mais um brilhante filme argentino, mas cujas histórias muito bem poderiam ser brasileiras, pois atingem dramas universais, como os dois homens que brigam até a morte no trânsito, indo do ridículo e cômico às falésias da tragédia. Vou torcer por Szifron no Oscar, boto fé que ele ganha de “Leviatã”, “Ida”, “Tangerines” e “Timbuktu”! Vou torcer!
 



*João Novaes é diretor de cinema e TV. joaonovaes2@gmail.com .   
       
 
 

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