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CAROL PIVA

A carestia das coisas: que o novo ano seja...

| 03.01.16 - 15:14
Ao Luiz Ruffato, que escreve o Brasil

Bem repimpado de estoriar sentidos, a bem da nossa alegria...  
 
Porque, sim, era a segunda ou quarta vez que eu passava na porta daquele mercadinho, ali na Vila Nova. Manhã de luz viventa, pelas oito ou nove horas, ainda cedo. As pessoas atravessando rua com urgência, mas no desdesespero. Criançada já em preparo das tagareladas. A gente de família tudo pobre, mas cada qual na sua imaginatura, gostando ainda em bastantes das estórias com que desamanhecer a vida da labuta doída. Eu, propriamente, bem que vinha de há algum tempo em tentativas de viver de estórias, rabiscar miragens, topar uns redemoinhos, estudar de novo certas visualidades, o que fosse. Porque a gente, quando assim, pelo menos não entra no desjuízo dos dias-após, nisso que é a sobrevivência, de só engrenagem, comendo a gente pelas beiradas.
 
Aquela quarta-feira tinha, na verdade, começado esquisita. Mundo como se fosse terminar no dia seguinte, quase em aflição.
 
— Pois isso é coisa de sandice de fim de ano, feito estrovenga mesmo que não tem jeito, e fazer o quê?
 
Enquanto ouvia, eu calculava, no bem do exato instante, se descia a Independência ou a 5ª Avenida. Precisava tomar o coletivo até a cidade, alguém-lá tinha me contado que, justo naquele dia, bastava a gente seguir uma linha, e eu daria sorte de proseio com os da minha mais alta consideração — Josés, Josués, Vanins... De sorte que, em princípio, desacreditei, é claro — “Seria possível?”. Daí que acordei naquela quarta-feira, trinta e um de dezembro, sem nada a perder, com a ideia tal-fixa: serpear rua a rua, na vivência de perspectivas, de ir ter com o inutensílio fazendo caminho, em assim. Eis o episódio.
 
“Coisa de sandice de fim de ano...” Olhei para os todos lados, não vi ninguém. Fiz que tinha entendido o recado; afinal, “ando muito de imaginações por esses tempos, é decerto uma delas que me diz bom dia”. E sorri. Dormindo escasso da forma como eu vinha, não era de se afastar possibilidade de um ou outro relampejo, em desvario...
 
“Campus Samambaia, Terminal Praça da Bíblia” — era o meu. Como não têm mesmo cobradores os ônibus, saltei para dentro com obstinação de passar logo a catraca, abreviar as coisas, tomar assento, sem muita conversa, “Muito bom dia”, e as ruas naquele desmovimento todo, hein?, loja fechando em vez de abrir... “Tudo bem vazio a essa hora assim, né, como pode?”, fosse talvez mesmo coisa de final de ano, gentes ensimesmadas em suas salas de visitas, planejando, sofrendo, decidindo, ou enfins.
 
No veículo, eu e o motorista. De repente, até parecia de noite e que o ônibus ia em zás!, engolindo asfalto. “Estranhez das grandes...”, porque eu tinha uma muita convicção de ser ainda de dia. E não era? Lá no fundo, mais uma pessoa. Em conversa bem consigo:
 
— Meu deus, o que que estou fazendo? — E ele fazia como se vontadeasse levantar, anunciava tremeliques, olhava para fora, fixava-se dentro, chamava alguém pelo nome, em dificuldades, devaneava. E então maledizia o violão que carregava do lado direito, “Onde é que estava com a cabeça?”, e que o Presidente daria maneira de aceitar ele de volta na firma, claro que sim, e assim as coisas tomariam seu bom jeito novamente.
 
Do lugar onde estava, passei para perto do homem. Vanim do Sinimbu, era ele, pois vou nunca esquecer... Estava de ida ao Rio de Janeiro, tentar carreira de artista, era cantor. E me contou da peleja diária ali no Beco do Zé Pinto, onde residia; que o casamento por fim o endireitara na vida, e finalmente ficou sendo funcionário da Manufatora, cumpridor de hora certinha. Mas que vinha, no-contudo, em dias de apertume, saudadeando arranhar o violão de novo, com “um troço esquisito, uma gastura”, por conta do que, aliás, tinha tomado atitude de ir atrás do próprio destino. Sendo aí: virou “sucesso”, rádio local, programa do Seu Edegar de Souza, coisa fina. A esposa, Zazá, “Mulher macha, sô! Tretou, relou, lá vinha ela com falação”, tinha dado apoio, que ele voltasse à cantoria, incentivando até o empenho da casa toda, “os passarinhos inclusive”, para que ele possuísse condição de comprar passagem para o Rio, gravar disco, “ser artista!”, mas que, “Ah, eu sei, a gente vê como é difícil”, “Tem que lutar, lutar muito”. E ele emendava:
 
— Mas logo-logo, se tudo correr direito, eu volto... Meu deus, a Zazá vai é querer me matar se não der certo... Mas, não, tudo vai correr bem... — e então o povo do beco, segundo ele, se admiraria: “Olha o Vanim aí, como está diferente o danado. Virou artista!”
 
— E do que é que você tem medo então, Vanim? Por que essa aflição toda?
 
“É como a gente sabe, o outro lado da estória, a tal carestia das coisas, né?”
 
Foi o que imaginei que ele pudesse ter dito em resposteio. Porque dizer, dizer mesmo — ele não disse.
 
Fui abrindo o olho direito sem saber direito da minha então localização. Tinha cochilado. Livro algo-ainda aberto, na mão esquerda, dentro do coletivo. Remorsos e rancores..., quanto enredo, quanto, tanta, tantos de nós...
 
“Ah, essas estórias do Vanim...” E isso da “carestia das coisas”? Não podiam ser só subversões do real, como se em sonho — pois-ora...
 
Depois que recobrei sentido, vi que eu tinha era remendado as coisas no dito do Seu Balduíno, um nosso vizinho, “leitor do mundo”, como ele mesmo se dizia para nós. Hoje cedo, último dia do ano, quarta-feira de luz viventa, meninada já pretendendo algazarra, como eu ia contando de início, lembro ele ter reafirmado bem assim: que não era para a gente se acostumar ao absorvido dos dias, nem-nunca! E ele era enfático! Que a gente nem-não se acostumasse à dor, nem às doenças, tampouco à carestia das coisas...
 
... E que haveria de ser bom — o novo ano...
 
Penso que, de sonhando, fiquei com isso na imaginação. Era o que redemoinhava... sobre o fim do ano, começo de outro, a gente cada um com sua carência de vida na vida.
 
Num repente, vi a cidade inteira em luz de fim de ano mesmo, todo mundo em aflição, como se querendo acabar logo as coisas para... E eu, ainda de dentro do ônibus, que ia-vinha contornando, sem saber direito até onde, a cidade.
 
E que seja — pensei no afinal das contas — um ano de questionar não sentidos. “Onde se viu deixar rio morrer, professor apanhar no horizonte do vazio, de miopias e desgraceiras tão-tantas pondo mais incoerência ainda no nosso dificultoso viver a vida?
 
Que seja, portanto, ano de sonhar Vanins, de valorizar estranhezas e querença de lutar por pertencimentos. Lutar. Ainda que no ar. De estoriar devaneios de melhora-mais-ainda, de abraçar miragem, que sendo. Um ano de mais palavra, de esperança buscando caminho... de sonhar largo... com pelo menos algum-mais-sentido...

*Carol Piva é uma das editoras-fundadoras do jornal literário O Equador das Coisas, tradutora e ficcionista.

Comentários

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  • 03.01.2016 17:04 Germano Xavier

    Ah, esta carestia das coisas-todas, tudo tão-tão, o sonhar, o ir, o acreditar, o discernir... esta carestia de nos impedir-de-e-além... mas a carestia da revolta, do repasse de forças, das rupturas, dos verbos de sangue nas veias! Lindo demais, Carolina!

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