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Osmar Régis

O tiro, o alvo e a indignação seletiva

| 25.02.16 - 15:39
O gatilho da arma, segundo a Companhia Brasileira de Cartuchos (CBC), aciona o dispositivo que amassa a espoleta, provocando a queima de uma mistura detonante. O calor passa para a pólvora, que está dentro de um estojo de latão no revólver. A pólvora explode e arremessa a bucha ou o projétil à frente. Uma bala pode alcançar uma velocidade maior do que 975m/s, o que torna impossível alguém ao menos pensar antes que a bala lhe alcance. E sim, este é o meio mais rápido e indolor para morrer. A escolha da arma, da vítima, do local e da forma como é disparada é uma preferência de quem empunha objeto, seja essa pessoa policial ou ladrão, mocinho ou vilão.
 
Me solidarizo com a dor da família de Nathália [vítima de latrocínio na noite de 22 de fevereiro]. Mas muito me admira toda essa comoção com a violência em Goiânia agora. Todo os dias morrem jovens na periferia da cidade. Já cansei de redigir, cobrir e acompanhar casos de jovens negros ou pobres (ou negros e pobres) que foram alvejados seja por rixas internas, ou seja pela própria polícia que tenta justificar suas ações através da legitima defesa ou da simples sentença: “era bandido”. 
 
Em 2014, exatamente no dia em que se comemora o “Dia Internacional da Mulher”, quatro garotas foram executadas no Morro do Mendanha, no Jardim Petrópolis. Uma delas tinha envolvimento com o mandante do crime e as companheiras pagaram o preço por estarem ao lado da amiga no momento. O que eu ouvi na época foram coisas como: “Não deveriam estar na rua”; “Mas também, né? Vai envolver com gente que não presta”; “Olha só o lugar que estavam”. Não interessa. Há aqui uma indignação seletiva.
 
Os goianos em seus perfis estão lamentando a morte de uma pessoa assassinada e não discutindo violência. Veja bem, o alerta de que as coisas estão realmente ruins apenas disparou quando o sangue foi derramado em uma das calçadas do Setor Marista, um bairro nobre da cidade. Esse sofrimento é o da classe média - da elite goiana - e seja lá de mais quem nunca colocou os pés em setores como Madre Germana, Jardim Curitiba ou Bairro da Vitória. 
 
Outra coisa que escuto bastante é que na periferia isso é normal. Não é normal e jamais deverá ser. A filósofa alemã naturalizada americana Hannah Arendt trabalhou bastante em cima de uma expressão chamada banalidade — ou banalização — do mal. Segundo Arendt, o mal, quando atinge grupos sociais, é político e ocorre onde encontra espaço institucional. A banalidade do mal se instala no vácuo do pensamento, trivializando a violência. 
 
O ponto que gostaria de chegar é este: nos anestesiamos tanto com a violência na periferia que só nos chocamos quando o problema bate na porta de nossas casas ou ruas. A violência está presente diariamente na vida da maioria da população, que não tem acesso a saneamento básico, a saúde, educação e moradia de qualidade. No entanto, a família, a escola, a mídia e tantas outras instituições não costumam considerar como violência as formas mais perversas de opressão e exclusão de milhões de seres humanos. Quer se indignar? Pois você tem todo direito. Mas faça isso por todos, não só por um. O primeiro passo para acabar com a violência é acabar com a exclusão. E acabar com a exclusão também significa incluir na sua dor aquele que é tão diferente de você. Isso tem nome e se chama empatia.
 


*Osmar Régis é jornalista, especialista em jornalismo cultural (UERJ)
 

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