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Gabriel Chalita

Sujos e malvados

| 04.04.17 - 18:21
Uma mulher estava limpando a rua. Muitas mulheres e homens limpam as ruas, todos os dias, nas pequenas e nas grandes cidades. Com seu uniforme, a mulher, gari, limpava a rua.
 
Um homem chegou para entrar em seu carro e começou a xingar a mulher. Falava alto. Gesticulava. Ameaçava. A mulher tentava explicar. O homem não estava disposto a ouvir. Eram frases tão soltas, tão desconectadas, tão agressivas que ficava difícil entender tamanha chateação em uma manhã ensolarada.
 
O dia estava apenas começando. O homem saiu com o carro em alta velocidade, sem desperdiçar, entretanto, a oportunidade de mais algum xingamento. Com o vidro aberto, mandou que ela sujasse a mãe e ainda disse que estava com o nome dela e que ela aguardasse para ver o que haveria de acontecer. Gritando e olhando para trás, quase atropelou uma criança com roupa de escola.
 
A mulher parou um pouco, colocou as duas mãos sobre a vassoura em pé, abaixou o queixo para acomodá-lo sobre as mãos e respirou calmamente para que as batidas apressadas do coração voltassem a ser o que eram antes do ocorrido. 
 
Chorou aquela mulher. Lembrou-se da mãe, de quem ela cuidou até morrer. Sujar a mãe? Nunca. Limpou-a muitas vezes, quando a doença roubou sua autonomia. Acordou cedo, cedíssimo, para trabalhar. O pouco salário nunca foi desculpa para algum descuido. Se alguma poeira atingiu aquele homem, não foi proposital. Ela estava de costas quando ele chegou. O carro estava estacionado em frente a uma igreja. Certamente, ele não estaria saindo da igreja, pensava a mulher. Se estivesse saindo, se estivesse ido rezar, não agiria daquela forma.
 
O homem pediu o seu nome. Ela, imediatamente, deu. Com a língua presa, pronunciou um nome comum. Não entendeu a razão. Ligaria ele para algum conhecido poderoso e pediria que ela fosse demitida? O homem parecia decidido a mostrar que mandava.
 
Pensamentos tantos ocuparam a cabeça da mulher. O cansaço. A diabetes. A preocupação em não ficar nervosa. A pressão alta. Os filhos que dependiam dela. O marido, que gritava de forma parecida à do homem do carro, havia ido embora. Estava tudo nas mãos dela. Limpar a cidade e cuidar dos seus. E, agora, numa manhã ensolarada, num dia ainda espreguiçando, a chateação dos maus tratos.
 
O homem estava bem vestido. Parecia limpo. Parecia. Não. Não era a poeira saída das ruas que haveria de sujá-lo. Estava sujo o homem.
 
Lembrei-me do filme de Ettore Scola, "Feios, sujos e malvados". O filme é uma provocação. Comportamentos desprovidos de ética moravam naquelas personagens que misturavam estilos, tragédia shakespeariana e comédia italiana. Tragédia e comédia. Dores e risos. Pessoas bondosas que amanhecem conosco, e pessoas que almejam roubar nossos amanheceres.
 
O homem do carro não tinha nenhum estilo. Não sei dizer se era feio. Não deu para reparar. Mas era malvado. Era uma manhã ensolarada. A folha do novo dia estava quase em branco. Aguardando textos. Começar com uma rasura demonstra descuido maior do que o da mulher, se descuido houve. O que ela sujou? Ele? O carro? Com alguma poeira?
 
Covardias são comuns em pessoas sujas e malvadas. E feias. A beleza não mora em detalhes objetivos e explícitos. Brota de uma luz que todo o ser humano é capaz de irradiar. Parecida com a luz daquela manhã ensolarada. O homem teria outros motivos para estar daquele jeito? Não. Não há justificativas para ações assim.
 
A criança que quase foi atropelada, um pouco adiante, ajudou uma senhora idosa a atravessar a rua. Aprendeu esses bons modos em algum lugar. Que bom. Há esperança!
 
O homem saiu dali para ir a algum lugar. Sei quase nada dele para dizer algo a mais. Sei que o que vi é feio. Abracei aquela mulher, suada de nervosismos e da lida, preocupada com o amanhã, ciosa de que teria que prosseguir, de que havia muito a ser limpo naquela cidade.
 
Cenas cotidianas nos inspiram. Falou-me um pouco do seu calvário aquela mulher. Tinha medo de gritaria. Conviveu com um pai assim e com um marido assim. Gostava da vida. De acordar cedo. De ter um trabalho. De deixar a cidade mais bonita. De encontrar pessoas educadas que, com naturalidade, a cumprimentavam. Sorriso bonito o daquela mulher. Passado o susto, ela estava novamente limpando. Fui saindo e reparando que os seus lábios se movimentavam. Não sei se ela estava conversando com ela mesma e dizendo que não se importasse ou se estava cantando. Se estivesse cantando, certamente seria uma canção bonita. O sorriso dos olhos revelava isso.
 
Disse a mim mesmo que não fosse descuidado. Que nunca agisse como aquele homem em frente à igreja. Disse a mim mesmo que cultivasse a beleza e a bondade daquela mulher.
 
A criança, ao longe, ia para a escola. Deve ter ela bons professores.
 
Era uma manhã ensolarada. Era um dia ainda começando. Quantas outras mulheres bonitas e bondosas ainda haveriam de se encontrar com homens sujos e malvados?!
 
Não que não haja mulheres malvadas e homens bondosos. Mas, naquela manhã ensolarada, foi o que eu vi, foi o que me aqueceu.



*Gabriel Chalita é presidente da Academia Paulista de Letras
 


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