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Fabrício Cordeiro
Fabrício Cordeiro

Crítico de cinema e curador da Goiânia Mostra Curtas 2013 - Mostra Municípios / fabridoss@yahoo.com.br

Sala de Cinema

Mais salas de cinema, menos salões de festa

Capital precisa de mais opções | 02.10.14 - 10:08
A Ancine liberou edital para a produção de um longa goiano, com grande parte do orçamento vindo do FSA, o Fundo Setorial do Audiovisual. É uma grande notícia, uma vez que, como a própria dinâmica de distribuição do Fundo prevê, o Centro-Oeste é uma das regiões que carecem de maior incentivo e fomento. A despeito de quem diga que Goiás ainda não possui equipes de produção que sejam suficientes para a execução e circulação de um longa-metragem (penso aqui comigo: ora, a liberação do edital já não criaria e estimularia essa necessidade?), esperemos os melhores resultados possíveis.
 
Porém, devemos lembrar que fazer e construir cinema não é só "fazer filmes", não é apenas uma questão de ter um diretor, uma equipe, e filmar. Cinema não é filmar. Cinema é filmar também.
 
Tão essencial para a formação de uma cultura de cinema em um lugar é o que as pessoas daquele lugar têm assistido, como desenvolvem o seu olhar cinematográfico, seja para serem realizadores melhores, críticos melhores ou, igualmente importante, espectadores melhores (o que, na base, todos somos). Para Goiânia, Goiás, a existência e sucesso de um festival como o I Fronteira serve de recente lição: uma extensa e ousada seleção de filmes extremamente avessos ao senso comum, obras exigentes até mesmo para a cinefilia pulga do cinema alternativo, o saudável atrevimento de exibir por uma semana um cinema de impacto que desafie noções pré-estabelecidas do que se ver e ouvir numa sala de cinema; da mesma forma, um festival que dedicou atenção a um encontro de residência crítica, assim como um júri da crítica jovem, disposto a discutir os filmes ao máximo, e a abertura para a crítica de cinema como elemento constante do festival. Ali, cinema era feito até mesmo numa mesa de pebolim disposta no quintal do cinema.
 
Há mais de 40 anos Truffaut já observava que escrever crítica de cinema também era fazer cinema. Goiás ainda diz pouco nessa esfera, e talvez por isso alguns diretores daqui se mostrem desacostumados quando a crítica se manifesta. Não que seja surpreendente; é parte do processo, afinal. Um processo de formação, eu diria, e inclusive para a própria crítica, que deve estar sempre em constante formação e, nos melhores casos, também ciente de que pode ser falha. É importante que haja o exercício e a prática da crítica de cinema (e aqui incluo oficinas, trabalhos de curadoria e de júri, mesas de debates etc) por aqui, da presença dessa escrita no Goiás-Texas, do falar e pensar os filmes, e que não age "contra" isso ou aquilo, que não "mata" cinema "goiano" algum.
 
Bom, falei tudo isso para chegar no que talvez seja, ainda, uma nascente da boa cinefilia (aquela que não se limita a ser acumulativa, a ver inúmeros filmes e consumir a eles e seus produtos como um mero colecionador): salas de cinema. É verdade que hoje a internet é capaz de suprir toda uma carência de filmes, mas a rede se depara com dois problemas básicos: a fragilização da memória cinematográfica e, portanto, de sua história, já que o consumo virtual pode ser tão efêmero e desapegado; é, em sua essência, ferramenta do espectador solitário, enquanto uma sala de cinema é também um lugar de encontro, pequenos fóruns de cinefilia, por mais saudosista que hoje isso possa parecer. Mas isso é outro assunto, longo e para outra hora.
 
Voltando a Goiás, o que nossa capital metropolitana tem a oferecer a um cinema prestes a partir para o seu longa apoiado por Ancine/FSA? O que temos para além do circuito comercial dos shoppings? O Cine Cultura faz seu trabalho heróico, mas não deveria ser o lone ranger de uma cidade como Goiânia, que tem tantos espaços de exibição preparados mas mal utilizados ou realmente inutilizados.
 
No meu modo de ver, uma das melhores coisas que Goiânia faria ao cinema daqui, o "cinema du Goiás", seria colocar suas salas para bombear um pouco de sangue e tirar o Cine Goiânia Ouro e os cines do Centro Cultural Oscar Niemeyer da inanição.
 
Há quanto tempo o Cine Ouro, de responsabilidade da prefeitura, não exibe algo de relevante? Com espaço externo para mesas e um café (de estrutura pronta, com balcão e cozinha ao fundo), uma sala com mais de 200 lugares e tela de dimensões expressivas, além de um palquinho ideal para debatedores, o Cine Ouro, tão bem localizado na Galeria Goiânia Ouro da rua 3, região central, caso fosse bem tocado, poderia ser a menina dos olhos de qualquer equipe de programação.
 
Por sua vez, o que dizer das salas de cinema do Centro Cultural Oscar Niemeyer, que poderiam abrigar belas mostras e retrospectivas, e, como parte de um centro cultural de tamanha amplitude (ao menos em teoria), organizar projetos de educação cinematográfica, a exemplo do Cine Humberto Mauro em Belo Horizonte? No entanto, ainda são salas de papel e um dos muitos mistérios daquele espaço.  Sabe-se que a rede Lumière é a vencedora da licitação (e aproveito para perguntar: será exatamente mais um padrão Lumière, com programação espelhada em qualquer uma de suas unidades?), mas a inauguração das salas não cansa de ser adiada. A última previsão visava justamente este mês de outubro, mas vai saber.
 
No fim das contas, como bem lembrou o jornalista Eduardo Horácio, o CCON, inaugurado às pressas há oito anos, tem feira e pista de skate, mas biblioteca e cinema, nada até hoje. Nada contra as feiras e pistas de skate - sem falar da crescente adesão de patinadores à área externa do complexo - e os esforços para fazer com que o CCON deixe de ser, aos poucos, o elefante branco da pasta de cultura do Governo estadual, mas se não há total proveito das peças de seu projeto original, então não teria sido melhor um grande parque no lugar? Para quantos bailes de debutantes o CCON alugará seu espaço antes que suas salas de cinema finalmente comecem a funcionar?
 
Bom, o Cine Santa Maria, uma sala pornô, está à venda. No meu mundo ideal, ganho milhões na loteria e, inspirado no Cine São Luiz, do Recife, o transformo no Cine Veludo Azul.
 
 

Comentários

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  • 02.10.2014 11:40 santa maria

    caro amigo critico, se souber o valor do cinema a venda por favor envie um mail para santamaria@mailinator.com obrigado.

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