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Sobre o Colunista

Cejana  Di Guimarães
Cejana Di Guimarães

Jornalista formada pela UFRJ e pela Universidade de Fribourg, Suíça. Vive há 20 anos em Zurique. / cejanadiguimaraes@gmail.com

Cartas do Exílio

Eu acredito

| 01.04.14 - 08:39 Eu acredito

Cresci no meio do silêncio. Era preciso tomar cuidado. Não era possível dizer qualquer coisa em público, nem mesmo dentro de casa, podia-se ser preso, torturado, sumir, nunca mais voltar. Falar ao telefone também era perigoso, era preciso ter muito cuidado, era preciso ter medo - ontem mesmo a filha do vizinho foi presa, o amigo do filho, o primo, o namorado da tia...
 
Foi assim que cresci e já contei essa história aos meus filhos quando me perguntaram o que era uma ditadura. Isso aconteceu há 50 anos. É preciso comemorar. Mas comemorar o quê? Comemorar o silêncio, as mortes, os anos perdidos, o medo? 
 
Ditadura é isso, silêncio e medo. Ser um prisioneiro dentro de casa, viver em uma terra sem dono, onde só as armas mandam, só os tanques de guerra e as prisões. Ser um cidadão sem pátria, viver sem direitos, acoado como um animal de caça entre cães raivosos. 
 
É isso que se deseja? Leio estupefada os jornais e as notícias na internet e me pergunto, o que aconteceu no Brasil para algumas pessoas pedirem a volta dos militares ao poder? 
 
Tenho a impressão de participar de um filme surrealista ou de uma peça de teatro do absurdo. Não é preciso ter coerência nem lógica, muito menos memória, frases e acontecimentos são encadeados sem nenhuma necessidade de sentido.
 
Minha família não era esquerdista, mas profundamente democrática, orgulhosa de seus antepassados republicanos, para quem os conceitos de liberdade, coerência política, solidariedade eram muito importantes.

Uma família que apoiou João Goulart e Mauro Borges até o último minuto, que acreditava em justiça social, em reforma agrária e que confiava, sem partidarismos, no caráter e na competência de seus políticos e cidadãos.
 
E continuo pensando assim, prefiro confiar a desconfiar, prefio acreditar a duvidar. 
 
Acredito no Brasil, acredito nos seus políticos, acredito nos meus amigos, nos jornalistas, nos empresários, nos fazendeiros, nos universitários, nos professores, nos intelectuais, nos operários. Continuo vendo mais qualidade do que defeitos e penso que os que falam e divulgam o contrário são aqueles interessados em nos calar.
 
Eu poderia fazer aqui uma lista dos mortos e desaparecidos, dos torturados, dos cassados, fazer um apanhado do antes e depois da ditadura, dos níveis de desigualdade social, concentração de renda, analfabetismo, saúde pública, uma lista dos índices de crescimento econômico, de desemprego, inflação, aumento salarial, poderia dizer de onde viemos e até onde chegamos. Mas outros já fizeram isso antes de mim e com maior competência.
 
Mas mesmo sem números, porque não tenho paciência para eles, quero falar dos avanços sociais, políticos e econômicos impressionantes que o país teve depois que os militares deixaram o poder. Todos sabemos que a ditadura era um sistema repressivo criado para defender interesses entrangeiros e sustentar um modelo econômico "milagroso", no qual o país enriquecia, mas o povo empobrecia, onde poucos ganharam muito e multinacionais passaram a dominar o mercado, um modelo feito por e para uma elite que apoiava e sustentava os militares. 
 
Mas um país não cresce de verdade se a maioria da população passa fome. Não existe estabilidade econômica real, segurança e qualidade de vida, sem que se desenvolva um mercado interno a partir da melhoria do poder aquisitivo de cada cidadão. E para isso é preciso investir em educação, saúde e justiça social, também através de instrumentos como cotas e bolsas governamentais. Convivo com esse tipo de política social diariamente na Europa.
 
Não acreditar em justiça social é querer satisfazer apenas interesses individuais e estrangeiros, estranhos ao bem estar real do país e de seus habitantes. Falo aqui apenas de argumentos da lógica de pensamento liberal, baseado no consumo e no crescimento econômico. Porque essa é a nossa realidade. Um sistema democrático, liberal que invista em política social é tudo o que desejo para o Brasil. Porque é o modelo que vejo oferecendo melhor qualidade de vida a seus cidadãos, depois de viver mais de 20 anos no exterior.
 
E acredito que estamos no bom caminho. Acredito no povo brasileiro, acredito no voto, acredito nos partidos, em vários partidos, acredito nos políticos, acredito no crescimento, acredito na segurança, acredito no bom senso da maioria, acredito em quem acredita.
 
Porque não acreditar em si mesmo, no próprio país só interessa a quem quer nos calar, quem quer impor silêncio e medo. 
 
Eu acredito.

Comentários

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  • 31.08.2014 13:54 Yuri Baiocchi

    Cejana, se os próprios brasileiros não acreditam no futuro do Brasil, quem mais há de acreditar, todos deveriam fazer isso o que você fez, declarar o seu amor à Pátria e defendê-la até a morte. O seu ato ganha ainda maior beleza, pois vemos que mesmo longe dos olhos da Serra Dourada, do outro lado do gigante Atlântico, lembra e honra o seu torrão, ato este que se encontra em extinção na Terra Brasilis. Para terminar, como um ato de tentar enriquecer este meu pobre comentário, transcrevo aqui uma das maiores declarações de amor à "PÁTRIA MINHA": Pátria Minha Vinicius de Moraes A minha pátria é como se não fosse, é íntima Doçura e vontade de chorar; uma criança dormindo É minha pátria. Por isso, no exílio Assistindo dormir meu filho Choro de saudades de minha pátria. Se me perguntarem o que é a minha pátria direi: Não sei. De fato, não sei Como, por que e quando a minha pátria Mas sei que a minha pátria é a luz, o sal e a água Que elaboram e liquefazem a minha mágoa Em longas lágrimas amargas. Vontade de beijar os olhos de minha pátria De niná-la, de passar-lhe a mão pelos cabelos... Vontade de mudar as cores do vestido (auriverde!) tão feias De minha pátria, de minha pátria sem sapatos E sem meias pátria minha Tão pobrinha! Porque te amo tanto, pátria minha, eu que não tenho Pátria, eu semente que nasci do vento Eu que não vou e não venho, eu que permaneço Em contato com a dor do tempo, eu elemento De ligação entre a ação o pensamento Eu fio invisível no espaço de todo adeus Eu, o sem Deus! Tenho-te no entanto em mim como um gemido De flor; tenho-te como um amor morrido A quem se jurou; tenho-te como uma fé Sem dogma; tenho-te em tudo em que não me sinto a jeito Nesta sala estrangeira com lareira E sem pé-direito. Ah, pátria minha, lembra-me uma noite no Maine, Nova Inglaterra Quando tudo passou a ser infinito e nada terra E eu vi alfa e beta de Centauro escalarem o monte até o céu Muitos me surpreenderam parado no campo sem luz À espera de ver surgir a Cruz do Sul Que eu sabia, mas amanheceu... Fonte de mel, bicho triste, pátria minha Amada, idolatrada, salve, salve! Que mais doce esperança acorrentada O não poder dizer-te: aguarda... Não tardo! Quero rever-te, pátria minha, e para Rever-te me esqueci de tudo Fui cego, estropiado, surdo, mudo Vi minha humilde morte cara a cara Rasguei poemas, mulheres, horizontes Fiquei simples, sem fontes. Pátria minha... A minha pátria não é florão, nem ostenta Lábaro não; a minha pátria é desolação De caminhos, a minha pátria é terra sedenta E praia branca; a minha pátria é o grande rio secular Que bebe nuvem, come terra E urina mar. Mais do que a mais garrida a minha pátria tem Uma quentura, um querer bem, um bem Um libertas quae sera tamem Que um dia traduzi num exame escrito: "Liberta que serás também" E repito! Ponho no vento o ouvido e escuto a brisa Que brinca em teus cabelos e te alisa Pátria minha, e perfuma o teu chão... Que vontade de adormecer-me Entre teus doces montes, pátria minha Atento à fome em tuas entranhas E ao batuque em teu coração. Não te direi o nome, pátria minha Teu nome é pátria amada, é patriazinha Não rima com mãe gentil Vives em mim como uma filha, que és Uma ilha de ternura: a Ilha Brasil, talvez. Agora chamarei a amiga cotovia E pedirei que peça ao rouxinol do dia Que peça ao sabiá Para levar-te presto este avigrama: "Pátria minha, saudades de quem te ama... Vinicius de Moraes." Texto extraído do livro "Vinicius de Moraes - Poesia Completa e Prosa", Editora Nova Aguilar - Rio de Janeiro, 1998, pág. 383.

  • 20.04.2014 07:44 Aurelia guilherme

    Cejana, morro de saudades de vc! Bj

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Cejana Di Guimarães

Jornalista formada pela UFRJ e pela Universidade de Fribourg, Suíça. Vive há 20 anos em Zurique. / cejanadiguimaraes@gmail.com

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